Tá olhando o quê?

Provocação. Essa parece ser a tônica do momento. Não importa quais são as opiniões, não interessa quais são os motivos e tanto faz quais são as motivações. Em tempos de cólera, o que de fato importa, não é o dom do raciocínio e, sim, a capacidade de provocar e ser provocado. É como se estivéssemos dizendo e ouvindo “tá olhando o quê?”  para qualquer um que ousar nos encarar por mais de cinco segundos.

Um ambiente provocativo está longe de ser algo ruim e ajuda a nos manter atentos ao que se passa, mas não é isso que se percebe. Trata-se de uma forma rasteira e perigosa de chamar a atenção do outro, expondo diferenças e levantando argumentos rasos, com um único e claro objetivo – incitar o ódio coletivo, irracional e gratuito. Apenas.

Essa forma de expressão não é nova, sempre esteve entre nós, mas nunca como agora. O que chama a atenção nesta postura coletiva, é o seu tom perverso e apelativo, que busca, sem cerimônias, ativar a irracionalidade alheia, trazendo à tona preconceitos que potencializam maldades que tanto lutamos para conter. Provocações que resgatam a mãe de todas as nossas mazelas – a intolerância.

Sempre fomos intolerantes em algum grau. Isto é um triste fato. Mas o que se vive agora, possui um caráter muito particular. Estamos acostumados a passividade daqueles que leem livros de história e que veem filmes de época que relatam fatos hediondos e desumanos. Fatos que doem, mas não o suficiente para nos transformar porque, segundo alguns, o passado não é capaz de nos tocar. Tudo isso mudou. Agora, somos contemporâneos do ódio sem filtros. E não temos ideia do que fazer com isso.

É intrigante constatar que, sequer, fomos capazes de perceber o peso e a sombra da intolerância se aproximando. Talvez o que incomode, não seja a dificuldade de enxergar o ódio nos contaminando e, sim, a culpa por tê-lo visto chegar e não termos feito nada para impedir. A maldade sorrateira ganha forma e força em terras comandadas pela omissão.

Passada a surpresa de, enfim, perceber que o mundo é mal, o que fazer? Há apenas três caminhos possíveis. Um deles é lutar vigorosamente contra toda e qualquer possibilidade de exclusão provocada pela intolerância. O outro é continuar fingindo que nada está acontecendo e por último, mostrar, sem pudores, o fascínio leviano por essa nova ordem onde, a indiferença pelo outro, é o principal caminho para a concretização da intolerância. O mais chocante nisso, é atestar que a última opção parece ter muito mais adeptos do que ousaríamos imaginar.

Todo esse cenário só é possível por uma única razão: a representatividade. Aquela que é capaz de dar voz a quem busca dias melhores, também é usada para engrossar o caldo ácido do ódio. Intolerantes produziram representantes que verbalizam a plenos pulmões toda a sorte de absurdos contra tudo e todos. Grupos com uma capacidade enorme de fazer barulho e criar realidades virtuais onde parecem ser maiores do que realmente são. Infelizmente, eles têm sido bem-sucedidos.

O que nos resta? Pular mais alto. Dar o troco. Mostrar quem manda. Não com ódio, mas com razão e amor. O ódio e a intolerância, crescem em terra arrasada, plena de irracionalidade e, combatê-los com essas armas, é certeza de vitória. Tentar resgatar o amor no outro é o grande desafio em tempos tão difíceis. Muitos podem rejeitar a ideia, afinal, o amor é facultativo e sua aceitação pode assumir diferentes formatos. Já o ódio, não. Esse é intolerável. Deixar que se fortaleça é, antes de tudo, falta de humanidade. Amor e razão trazem mudança, paz e esperança. Já a intolerância fomenta o ódio. E é ele que queremos sentir e propagar? Não. Ele não…