Ao mestre, com respeito

Dia do mestre. Essa data repete-se como um ritual anual, que traz uma visibilidade instantânea para uma classe trabalhadora que sustenta os pilares de uma civilização. Não, não é exagero dizer isso. Salas de aula, são templos disponíveis para receber todos aqueles interessados no saber. E, para isso, é necessária a presença de um regente: o professor.

Escolas podem ser templos do saber, mas professores não são sacerdotes ou filantropos. Professores são profissionais. E merecem respeito. Celebrar o seu dia é importante, mas, esquecer sua existência ao longo dos outros trezentos e sessenta e quatro dias, é cruel. Não, os profissionais da educação não são pobres coitados em busca de holofotes cínicos ou de piedade falsa. Queremos e merecemos reconhecimento profissional, condições adequadas de trabalho e visibilidade.

Neste dia, é possível constatar que os professores estão fadados ao esquecimento. Estamos desaparecendo. Os alunos, os pais, a comunidade e as autoridades vão, pouco a pouco, minimizando a figura responsável pela formação daqueles que irão, independentemente da área de atuação, desenvolver o mundo onde vivem. É como se colocássemos o professor atrás de uma névoa densa, onde é possível enxergar apenas um contorno difuso, mas, sem a nitidez necessária para dar a devida importância ao seu ofício.

Somos, de fato, os pilares de qualquer sociedade que se pretende séria, organizada e justa. Salários de fome, “saunas” de aula e desrespeito por todos os lados, só podem ser combatidos de uma forma: dizendo basta! Alunos e professores, reivindiquem uma educação de qualidade, mas façam isso ocupando os espaços necessários e, principalmente, façam isso votando certo.

Professores não são vítimas, assim como, não são abnegados que trabalham por amor e vocação. Professores não precisam da reverência de imperadores e, sim, de reconhecimento real, afinal, de oportunismo leviano e eleitoreiro, já estamos fartos. Não somos santos e nem melhores que ninguém. Mas somos, sim, essenciais.

Médicos salvam nosso corpo físico, engenheiros constroem as cidades, advogados e suas leis mantém a nossa organização social, mas, nenhum destes profissionais é capaz de promover uma transformação diária na vida de tantos. Professores, apesar de responsáveis pela formação de todos os outros profissionais, não são agraciados com aquilo que é comum aos demais trabalhadores que formam: o reconhecimento.

Precisamos entender esse paradoxo que nos faz amar os professores, a ponto de celebrar um dia só seu e, ao mesmo tempo, despreza-los todas as vezes em que lutam por melhores condições de trabalho. Não há melhor reconhecimento do que ver o sucesso pessoal e profissional de um estudante. Não há glória maior que ouvir de um ex-aluno, o quanto fomos importantes em sua formação. Essa, talvez, seja uma das poucas razões que impedem que desapareçamos na névoa do descaso e do esquecimento. Para que professores não se tornem invisíveis, a sociedade deve reconhece-los e valoriza-los. Para que isso aconteça, não é preciso muito. É necessário apenas… respeito.

A fábula do valentão

Tenho certeza que muitos de vocês, são capazes de identificar aquela figura que fez parte de vários momentos importantes de suas vidas e que, quase sempre, foi responsável por memórias um tanto incômodas? Essa pessoa é tão constante, que já tem lugar cativo no inconsciente coletivo, como se fosse uma personagem de fábulas. Tá aí um bom exemplo para dar nome a esse texto: a fábula do valentão.

Nas ruas onde costumávamos brincar, dentre todas as crianças, havia sempre aquelas que se destacavam por algum talento. Mas nada chamava mais atenção do que aquela criança que despontava como liderança e que já exercia um certo fascínio sobre todas as outras. Este suposto líder se destacava, geralmente, por sua força, habilidades físicas ou por ser considerado mais bonito que os demais. Características que são superestimadas em todas as faixas etárias, mas que, na infância, se expressam em estado bruto, sem filtros e com requintes de crueldade.

Crianças que conseguiam uma legião de admiradores, que davam suporte a todas as suas decisões, inflando seu ego infantil e colocando-os no centro de seu universo. Isso nos ajuda a entender que, quando muito jovens, achamos que divergências devem ser resolvidas no braço, sem articulações ou ponderações. E, por conta disso, quantas vezes não testemunhamos o fim prematuro de uma brincadeira, simplesmente porque o dono da bola estava perdendo para outra criança mais fraca e menos popular que ele?

Esse é um clássico infantil e que, infelizmente, pode acompanhar algumas pessoas vida afora, caso não seja contido. Limites, respeito ao outro e educação são princípios importantes nesse momento. Ainda bem que a família e a escola entram nesse circuito para nos ensinar que não vivemos mais em cavernas, logo, as divergências devem ser resolvidas através do diálogo. Pelo menos, é o que esperamos…

Ao chegarem na adolescência, os valentões infantis transformam-se, quase sempre, em meninos e meninas populares, cheios de aptidões físicas e pouco apresso as questões do intelecto. Parece preconceito, mas é apenas a constatação de um fato. É nessa época onde as diferenças se acirram e permitem a criação de grupos, assustadoramente, heterogêneos. Os rapazes fortes e esportivos, as meninas mais gatas do colégio, os meninos que brincavam com meninas e vice-versa, os descolados, os nerds e por aí vai. Arranjos sociais que rompem os muros escolares e se espalham por todos os lados.

Mas, o que de fato importa aqui, é de que maneira conseguimos lidar com a figura do chefe da turma, da mais bela do grupo ou do mais popular da rua, sem sucumbir à dominação do outro, apenas por ser considerado inferior a ele? A resposta não é tão difícil como parece, basta usar algo que é inerente a todos nós – a inteligência.

Exaltar a dominação pela força e reprimir o diálogo inteligente, são reflexos sociais que resolvem aparecer de tempos em tempos. E esse fenômeno só é possível quando muitos decidem ignorar toda a forma de pensar que seja contrária à sua. Voltando a ser como aquelas crianças birrentas, que sempre acabam com a brincadeira, todas as vezes em que o resultado as desfavorecer. Um péssimo caminho a seguir quando o objetivo é resolver conflitos e não, cria-los.

À medida que crescemos, nos tornamos mais conscientes sobre as pessoas e as coisas que nos cercam, percebemos que, manter os valentões populares em seus lugares de destaque, é uma escolha nossa e não deles. Nos tornamos homens e mulheres feitos quando, enfim, constatamos que é a soma da inteligência, empatia e o respeito pelas diferenças, a grande força que carregamos conosco o tempo todo. Esse é o grande poder capaz de subverter a ordem estabelecida e transformar pessoas comuns e sem perspectiva, em criaturas fortes e, genuinamente, valentes.

Dane-se!

O mundo tem se tornado um lugar complicado, para dizer o mínimo. Quantos de nós está realmente interessado com o que se passa à nossa volta? Chegamos a um ponto onde nem as nossas próprias questões chamam a atenção como deveriam. Não estamos indiferentes as questões do outro apenas, nos tornamos negligentes conosco também. Saber mais sobre a dor e a delícia de ser quem somos, tornou-se algo trabalhoso demais. Logo, dane-se o seu problema, não dou conta de mim, imagina de você… Quem nunca ouviu ou pensou algo parecido?

Nestes momentos em que medimos tudo por uma régua muito rasa, ligamos um farol interno que aponta para todos os lados sinalizando, para quem puder enxergar, que estamos nos lixando para toda e qualquer situação que possa, minimamente, trazer algum desgaste. Estamos todos em modo avião. Mantemos os sinais vitais com energia suficiente apenas para seguir em frente e, qualquer coisa que fuja a isso, irá demandar um esforço adicional que não interessa a ninguém.

Apesar das semelhanças, não podemos confundir esse estado de desinteresse coletivo, com apatia. Não é. Estamos, deliberadamente, nos importando menos com o que interessa de fato. Seguimos criando realidades paralelas onde elegemos algo para chamar de nosso e que se dane o mundo. Essa seletividade leviana, cria bolsões recheados de desinteresse, que não exclui apenas os problemas alheios. Fazemos parte desse pacote esquisito na mesma medida.

Valorizamos bobagens e deixamos de olhar com mais cuidado para o que pode nos transformar, melhorar e evoluir. Ignoramos talentos naturais, deixamos de lado novas possibilidades, criamos aversão pela novidade… Por que? A resposta não é tão difícil. Por medo ou preguiça de ter que colocar a mão nessa massa heterogênea e difícil de moldar que, não por acaso, chamamos de vida. Mudar de rota é trabalhoso, e como trabalho é algo fora de questão, é melhor dar de ombros, fazer cara de nada e pensar – dane-se – isso não daria em nada mesmo…

A primeira Lei de Newton nunca fez tanto sentido como agora. Estamos divididos entre corpos que se mantém em movimento, seguindo sabe-se lá para onde, e criaturas que se mantém em um repouso assustador, sem sinais de alteração. O que não seria um problema, uma vez que alternar movimento e repouso faz parte do nosso desenvolvimento. Mas, pelo que tudo indica, resolvemos deixar de lado essa alternância. Fazer isso é assumir que, não importa o que aconteça, movimentos aleatórios ou repousos irresponsáveis permanecerão inalterados. Em que momento perdemos a capacidade de reação?

A única escolha que me parece clara neste momento, é a decisão coletiva pela omissão. Não quero saber! Problema seu! Isso não me afeta! Foda-se! Dê seu jeito! Faça de novo! Dane-se… Não importa qual é a expressão utilizada e, sim, o que ela significa. Pensar no próprio umbigo o tempo todo, exclui a beleza da partilha e a importância da coletividade. E isso pode ser um caminho sem volta…

É bom ficar atento, pois, não se interessar pelo o que acontece a um semelhante, pode desenvolver uma insensibilidade crônica, um descompromisso leviano e um cinismo insuportável que deixam uma mensagem muito clara: toda forma de indiferença que aplicamos ao outro, será devidamente retribuída na mesma velha e conhecida moeda.

Tá olhando o quê?

Provocação. Essa parece ser a tônica do momento. Não importa quais são as opiniões, não interessa quais são os motivos e tanto faz quais são as motivações. Em tempos de cólera, o que de fato importa, não é o dom do raciocínio e, sim, a capacidade de provocar e ser provocado. É como se estivéssemos dizendo e ouvindo “tá olhando o quê?”  para qualquer um que ousar nos encarar por mais de cinco segundos.

Um ambiente provocativo está longe de ser algo ruim e ajuda a nos manter atentos ao que se passa, mas não é isso que se percebe. Trata-se de uma forma rasteira e perigosa de chamar a atenção do outro, expondo diferenças e levantando argumentos rasos, com um único e claro objetivo – incitar o ódio coletivo, irracional e gratuito. Apenas.

Essa forma de expressão não é nova, sempre esteve entre nós, mas nunca como agora. O que chama a atenção nesta postura coletiva, é o seu tom perverso e apelativo, que busca, sem cerimônias, ativar a irracionalidade alheia, trazendo à tona preconceitos que potencializam maldades que tanto lutamos para conter. Provocações que resgatam a mãe de todas as nossas mazelas – a intolerância.

Sempre fomos intolerantes em algum grau. Isto é um triste fato. Mas o que se vive agora, possui um caráter muito particular. Estamos acostumados a passividade daqueles que leem livros de história e que veem filmes de época que relatam fatos hediondos e desumanos. Fatos que doem, mas não o suficiente para nos transformar porque, segundo alguns, o passado não é capaz de nos tocar. Tudo isso mudou. Agora, somos contemporâneos do ódio sem filtros. E não temos ideia do que fazer com isso.

É intrigante constatar que, sequer, fomos capazes de perceber o peso e a sombra da intolerância se aproximando. Talvez o que incomode, não seja a dificuldade de enxergar o ódio nos contaminando e, sim, a culpa por tê-lo visto chegar e não termos feito nada para impedir. A maldade sorrateira ganha forma e força em terras comandadas pela omissão.

Passada a surpresa de, enfim, perceber que o mundo é mal, o que fazer? Há apenas três caminhos possíveis. Um deles é lutar vigorosamente contra toda e qualquer possibilidade de exclusão provocada pela intolerância. O outro é continuar fingindo que nada está acontecendo e por último, mostrar, sem pudores, o fascínio leviano por essa nova ordem onde, a indiferença pelo outro, é o principal caminho para a concretização da intolerância. O mais chocante nisso, é atestar que a última opção parece ter muito mais adeptos do que ousaríamos imaginar.

Todo esse cenário só é possível por uma única razão: a representatividade. Aquela que é capaz de dar voz a quem busca dias melhores, também é usada para engrossar o caldo ácido do ódio. Intolerantes produziram representantes que verbalizam a plenos pulmões toda a sorte de absurdos contra tudo e todos. Grupos com uma capacidade enorme de fazer barulho e criar realidades virtuais onde parecem ser maiores do que realmente são. Infelizmente, eles têm sido bem-sucedidos.

O que nos resta? Pular mais alto. Dar o troco. Mostrar quem manda. Não com ódio, mas com razão e amor. O ódio e a intolerância, crescem em terra arrasada, plena de irracionalidade e, combatê-los com essas armas, é certeza de vitória. Tentar resgatar o amor no outro é o grande desafio em tempos tão difíceis. Muitos podem rejeitar a ideia, afinal, o amor é facultativo e sua aceitação pode assumir diferentes formatos. Já o ódio, não. Esse é intolerável. Deixar que se fortaleça é, antes de tudo, falta de humanidade. Amor e razão trazem mudança, paz e esperança. Já a intolerância fomenta o ódio. E é ele que queremos sentir e propagar? Não. Ele não…

A velocidade da vida

A  maioria de nós costuma dizer que a vida é muito curta, que tudo passa muito rápido e que, quase sempre, não conseguimos dar conta de todas as coisas que precisamos fazer enquanto estivermos por aqui. Difícil encontrar alguém que discorde dessa opinião tão sedimentada e, talvez por isso, não consigamos compreender qual é a real velocidade da vida que levamos.

O senso comum sobre a brevidade da nossa existência, deixa de lado o fato de que, em muitos casos, a vida, nem sempre, corre em um circuito de alta velocidade, ao contrário. Para muitos, viver pode ser um caminho longo e arrastado onde o tempo parece não ter pressa alguma para seguir em frente. A vida assumirá ritmos variados com base em um simples, mas poderoso, fator – as nossas decisões. Os desdobramentos das nossas escolhas é que irão ditar a velocidade real das nossas vidas.

A percepção que temos da realidade, independente da idade, é absolutamente particular, o que nos leva a criar algumas distorções sobre o nosso próprio tempo. Mas, dificilmente, relacionamos nosso ritmo de vida às decisões que tomamos. Agimos como se a vida, aquela entidade indomável e descolada de nós, fosse a única responsável pela realidade. O que pode nos eximir de qualquer traço de culpa por todas as decisões tomadas, sejam elas equivocadas ou não.

Todas as vezes em que estamos diante de um novo desafio, sobra pouco ou nenhum tempo para elaborar uma forma de agir. Vamos lá, aceitamos, ou não, e pronto. O que é absolutamente normal, não fosse o fato de ocultarmos a nossa responsabilidade sobre os efeitos dessas decisões e, de que formas, isso irá afetar a percepção que temos sobre a ação do tempo em nossas vidas.

Aceitar uma proposta de emprego. iniciar um relacionamento ou mudar de cidade. Situações distintas, criadas a partir de nossas decisões e que serão capazes de dizer se devemos correr atrás, o mais rápido que pudermos, das nossas escolhas ou, se iremos sentar e esperar o lento caminhar da vida que decidimos viver. De todo modo, decidir nunca é simples, até porque não temos ideia de como o futuro será de fato. Nos resta apenas desejar que dê tudo certo com as nossas escolhas e que sejamos felizes.

É neste ponto em que percebo o quanto a vida é muito mais longa do que querem nos fazer crer. Todos sabemos que existe um número incontável de experiências, de pessoas e lugares para serem vividos, conhecidos e experimentados. Mas isso não pode ser o motor principal que nos movimenta. Pensar em viver o hoje como se não houvesse amanhã é, antes de tudo, aceitar um estado de eterna ansiedade que, certamente, nos fará acreditar que, diante de tantas possibilidades, a vida sempre será curta demais.

A vida é cheia de possibilidades. Podemos mudar sempre que quisermos e de acordo com o nosso próprio tempo. Quem disse que precisamos correr, insanamente, atrás daquilo que nem sabemos o que é? Quem disse que, sem pressa, não se pode viver uma boa vida? Quem disse que a vida é curta demais para mudar de ideia? Aquele que disse para viver o hoje, como se não houvesse amanhã, possivelmente, perdeu-se entre suas escolhas e jamais conseguiu saborear com calma e prazer, as delícias de uma longa vida bem vivida.

Aqui pensando

Todas as vezes em que as anotações começam a ganhar vida, tenho a certeza de que novas visões de mundo começarão a tomar forma. E, à medida que as ideias surgem, afoitas e indomadas, é preciso compreendê-las e sermos gentis, pois esse turbilhão de novas possibilidades se formará todas as vezes em que nos colocarmos disponíveis para observar o mundo e as pessoas que nos cercam. Pensar é uma dádiva cada vez mais subestimada, mas que nos permite entender que, existem muitas saídas, para os caminhos que pareciam não ter volta. Ficar aqui pensando, não nos torna alheios ao que nos rodeia, ao contrário, nos permite ir além das inexplicáveis limitações impostas por nós mesmos.

Pensar é uma arte inquieta que, quanto mais nos dedicamos a ela, mais curiosos nos tornamos. As ideias pretensamente ingênuas que temos o tempo todo, pretendem mesmo, é provocar pequenos incômodos, daqueles que vão acendendo luzes à medida em que observamos a vida real passar diante de nossos olhos. Estas ideias nos tiram do atmosfera do óbvio e, com isso, permitem que consigamos, nem que seja por alguns instantes, enxergar muito além do que nossos olhos podem alcançar.

O que fazer quando chegamos ao ponto final de um livro, ao término de uma relação ou ao fim de uma conversa casual? Talvez pensar sobre o que acabou ser vivido, seja uma excelente opção. Mas, pensar sem agir não muda muita coisa, certo? Possivelmente não, mas ajuda muito nos momentos em que a ação precisa ser, antes de tudo, pensada. O que parece óbvio, não fosse a nossa dificuldade em lembrar disso quando, o agir nos permite fazer tudo, exceto, pensar…

Pensamentos não deveriam ser privilégios individuais. Dividir ideias transforma o nosso universo particular em diálogos cheios de cores que iluminam nossos olhares cansados de enxergar tudo sempre igual. É uma pena perceber que tantos resistem em compartilhar seus pensamentos, admitindo, de antemão, que não seriam capazes de mudar suas convicções ou seus pontos de vista. Castelos de areia disfarçados de pedra bruta.

Pensamento em divisão promove a soma de um sem número de pessoas que entregam seus anseios e desejos, medos e conquistas nas mãos de outros, que também tentam fazer o mesmo. Não há garantias de que isso dará certo, mas a simples tentativa, já é capaz de nos presentear com uma nova experiência que, mesmo sem perceber, nos fará pensar se acertamos ou erramos. Mas, independentemente do resultado, trocar ideias, mesmo que de forma sutil, já é, por si só, um caminho de transformação definitiva.

Essa troca de pensamentos é capaz de gerar algo ainda mais incrível: a gratidão. Receber aquilo que o outro guarda intimamente em suas caixas de passado e ofertar as suas em troca é, acima de tudo, uma linda forma de agradecimento. Desnudar seus pensamentos é, além de um ato de coragem, um convite a uma caminhada de mãos dadas onde os laços de confiança serão bens valiosíssimos sem, jamais, tornarem-se amarras.

Pensar juntos constrói cúmplices que não aceitam mais ser um só. Pensar em comunidade cria uma legião de parceiros leais que confiam e esperam que estejamos por perto, sempre que necessário. Dividir pensamentos semanalmente, transforma o cientista em escritor, o professor em um contador de estórias e o escritor em parceiro de milhares de pessoas que desejam, de alguma forma, continuar juntos com ele nessa caminhada de muitos e de cada vez mais. Sempre juntos, aqui pensando…

Muito obrigado.

Marco Rocha.

#texto100

Extremos insanos

Pensando sobre todos os acontecimentos recentes, em que somos estapeados a cada segundo por situações que beiram a barbárie, me dei conta que, a simples expressão de uma opinião, pode deflagrar confrontos de consequências imprevisíveis. Diante disso, é inevitável tentar buscar respostas que justifiquem o porquê de tamanho descontrole. Esse questionamento dispara um gatilho de dúvidas que nos fazem desconfiar da nossa própria percepção da realidade. Vivemos em extremos insanos onde é preciso escolher lados e bandeiras, caso contrário, é melhor não atrapalhar a massacrante opinião alheia.

Será que todos sempre foram assim, intolerantes? Será que os limites se romperam, criando polos, distantes o suficiente, para nublar os filtros que formam o nosso bom senso? O que é perceptível neste momento é a divisão que se instaurou nas relações. Se você ama vermelho, jamais poderá usar azul. Se prefere o frio, nunca poderá aproveitar dias de sol na praia. Essa distorção na forma de ver a vida, cria um ringue onde amigos viram adversários e opositores transformam-se em inimigos de morte. Esse absurdo promove rachaduras desnecessárias no que antes era íntegro, equilibrado e precioso.

Que vivemos uma dicotomia desproporcional, não resta dúvidas, mas, o que fazer para revertê-la? Percebo que a cada dia, as distâncias entre pontos de vista aumentam e jogam para escanteio toda e qualquer possibilidade de diálogo. Isso não é razoável. Desde quando nos tornamos impermeáveis a opiniões que não têm a menor pretensão de guerrear e, sim, propor diálogos? Desde quando fomos tomados pelo cinismo que nos faz achar que está tudo bem, enquanto desfazemos, em poucos instantes, laços que demoraram anos para serem atados?

Talvez sejamos parte importante desse movimento indiscriminadamente excludente. No instante em que nos sentimos contrariados por essa polarização e nos calamos, nos tornamos responsáveis por sua manutenção. De nada adianta apontar dedos para todos os lados, distribuindo culpas e rugindo reclamações, se escolhemos nos manter alheios. A omissão dos insatisfeitos é o combustível perfeito para os extremistas cheios de razões.

Mas acreditem, há algo de bom nessa onda de ódio gratuito e intolerância desmedida. Se por um lado perdemos o filtro social que sustenta a maioria das relações, ganhamos em transparência. Agora é possível enxergar perfis para além dos filtros virtuais e dissimulações reais. Como lidar com isso ainda é um desafio, o que não justifica a nossa permanência em um dos extremos rígidos que limitam a nossa percepção de mundo. Nadar contra essa corrente que nos foi imposta é a melhor resposta que pode ser dada a triste falta de compaixão que se espalha por todos os cantos.

Estabelecemos os nossos extremos à medida que avançamos e acumulamos experiências. O que significa dizer que esses limites mudam de acordo com a nossa disponibilidade em conhecer as margens opostas. Ficar estacionado em uma das extremidades nos impede de enxergar e, principalmente, compreender como seria o mundo visto por outra perspectiva. É chegada a hora de procurar o caminho do meio, onde os extremos se reconhecem e andam lado a lado.

Voltas que a vida dá

Subir e descer. Cair e levantar. Dar a volta por cima… Frases diferentes, mas que trazem algum significado para aqueles momentos onde tudo o que enxergamos é o chão sob os nossos pés. Horizonte nada agradável que, certamente, nenhum de nós gostaria de admirar por mais tempo que o absolutamente necessário. Mas, apesar de incômodo, estar por baixo, seja lá por qual razão, ajuda a criar uma perspectiva inesperada sobre a realidade que ficou para trás, no instante em que tropeçamos em uma das voltas que a vida dá.

Mas este texto não tem a menor intenção de mostrar saídas ou de apresentar um manual de como levantar-se dos pós queda. Ao contrário. O objetivo aqui é enaltecer a importância dessa roda gigante que se movimenta quando e como quer, obrigando que tudo ao seu redor se mova, seja para acompanha-la, seja para dar passagem a sua trajetória irrefreável. Seremos chacoalhados dos nossos altares de segurança, sobre isso não resta dúvidas, a questão é saber como lidar com os altos e baixos que a vida nos apresenta. Cabe uma sugestão? Aceitar.

Travamos lutas internas frequentes, por não aceitarmos os momentos em que o copo está meio vazio ou a gangorra está presa ao chão. E há uma razão para isso. Aprendemos desde a mais tenra infância que não podemos abrir a guarda para a derrota. Não lidamos bem com a ideia de insucesso pois não fomos treinados para suporta-lo. Acho que isso explica muitas coisas que vemos por aí, não é?

Conquistar aquilo que desejamos é incrível, claro. Mas, sabemos muito bem que ganhar sempre, em todos os campos, é improvável, para dizer o mínimo. Logo, precisamos parar de temer a derrota. O que não significa tomar gosto pela queda e sofrimento. Nada disso. O que precisamos fazer é encarar a derrota, assim como fazemos, tão naturalmente, com a vitória.

Querer ganhar sempre não é um problema. É apenas ingenuidade disfarçada de proatividade e, o quanto antes percebermos isso, menor será a carga de frustração quando o êxito não chegar. Percebam que, quando ganhamos, esquecemos alguns dos passos que nos conduziram até a vitória. Já na derrota, os degraus ficam gravados em nossa memória por muito tempo, obrigando a refazer, muitas e muitas vezes, a trajetória que nos levou até a queda. Se isso não é uma forma de aprendizado, não sei mais o que pode ser.

Pode ser clichê, mas é inegável que aprendemos com nossos passos em falso. Tentar ignora-los é o nosso erro mais recorrente. Continuar reforçando a imagem do perdedor é antigo, é tolo, é cínico. A roda de todos nós irá girar, em velocidades diferentes e ritmos variados, mas vai girar. E isso nos fará perceber que ganhar é bom, mas é ponto final. E que perder é ruim, mas é, também, a possibilidade de uma nova chance, nos momentos em que nada mais parece dar certo. Estes altos e baixos, ajudam a compreender que ganhar e perder são lados igualmente importantes, da mesma moeda.

Cair de maduro

Cair de maduro. Todos já ouviram essa expressão que, dentre várias possibilidades, significa que alcançamos o nível máximo de alguma coisa. O que não quer dizer quase nada, mas, estar maduro é, em alguma medida, estar pronto. O grande desafio é saber para que, quando e como deveremos estar prontos. Convivemos com essa espada sobre as nossas cabeças desde sempre. Encaramos situações diversas diariamente, mas isso não parece nos preparar para muitas coisas, uma vez que continuamos aguardando o instante em que estaremos, de fato, prontos.

Quando começamos a encarar os desafios que a vida nos impõe e, percebemos que o nível de dificuldade aumenta de forma proporcional ao avanço do tempo, é que passamos a desenvolver uma busca pelo momento em que nos tornaremos aptos. Enquanto esse momento não chega – se é que ele um dia chegará – seguimos substituindo certezas invisíveis por ansiedades concretas.

Envelhecemos de formas distintas, pois cada um de nós encara o passar dos anos de formas diferentes. Essa passagem através do tempo nos oferece um grande privilégio: a maturidade. Que não tem hora certa e muito menos data programada para acontecer. Pode ser aos quinze, aos vinte e cinto, aos quarenta e três ou aos oitenta e um. E pode ser que ela nunca pouse sobre as nossas vidas plenamente. Mas, e daí? O ato de amadurecer não é compulsório, é escolha.

A passagem do tempo é incontestável e não estabelece um estado de maturidade proporcional as rugas que acumulamos. Atravessar o tempo nos ajuda a agregar experiências que, no futuro, irão nos alertar sobre alguns padrões de comportamento já vividos e que, por motivos óbvios, não gostaríamos de recuperar. Muitos diriam que este é um dos sintomas mais comuns de maturidade. Não discordo, mas também percebo que, não é a dificuldade em acumular experiências e, sim, o que apreender a partir delas, o entrave que nos impede de reconhecer o momento em que nos tornamos maduros.

A percepção de que estamos amadurecendo, vem quando conseguimos, pouco a pouco, domar a ansiedade provocada pela inexperiência e, colocar em seu lugar, a serenidade própria de quem já experimentou e foi experimentado pela vida, de quem já caiu e levantou muitas vezes, de quem, enfim, compreendeu que viver é guardar e refazer estórias que, em algum momento, transformarão formas rígidas e sem gosto, em criaturas maleáveis e cheias de sabores.

Amadurecer é difícil. Sobretudo quando não se tem a dimensão de até onde podemos chegar. E, quanto mais restrito é este horizonte, mais apegados a experiências rasas e desinteressantes podemos ser. Essa visão de mundo, cheia de urgência e pouca paciência, tão comum aos jovens, nos leva a associar uma certa inconsequência à juventude, assim como relacionamos a serenidade com a velhice. É um lugar comum repleto de exceções.

Tirar o pé do acelerador, ampliar o campo de visão e, sobretudo, ser paciente… À medida em que nossos sentimentos se tornam mais brandos e o raciocínio toma o controle dos nossos atos, amadurecemos. Até mesmo aqueles que pontuam suas vidas por episódios regados a paixões desmedidas, acalmam seus exageros quando resgatam suas experiências anteriores. É quando entendemos que passamos muito tempo fazendo perguntas para as quais já tínhamos respostas que passavam despercebidas. Caímos de maduro quando nossas questões ingênuas não provocam mais tanta ansiedade. Caímos de maduro quando as perguntas diminuem seu ritmo e passam a andar de mãos dadas com as nossas próprias respostas.

Simples escolhas?

Outro dia, me peguei pensando em como seria se eu tivesse feito escolhas diferentes das que fiz. E comecei a imaginar onde estaria agora, quem estaria ao meu lado, onde estaria trabalhando ou se teria os mesmos amigos… Olhar para nossa própria existência com outros olhares pode ser um excelente exercício de autoavaliação. Resta saber o que faremos com o resultado final dessa prova. Daí me dei conta que, tantas questões sobre as vidas que poderia ter tido, estavam condicionadas a simples escolhas. E que escolhas podem ser tudo, menos coisas simples.

Olhar para dentro e imaginar nossos universos paralelos é uma tarefa que dominamos há tempos. Mas, quando estamos imersos em nossas rotinas, sequer percebemos as escolhas que fazemos. Mudar de itinerário para o trabalho, almoçar em lugares diferentes ou apresentar propostas usando novos recursos, são atitudes que dependem de escolhas simples em princípio, mas que, na verdade, podem nos conduzir a lugares quem nem a nossa fértil imaginação seria capaz de conceber.

Parar e pensar em como seria a vida, se tivéssemos escolhido caminhos diferentes, é simples, apesar do efeito colateral indesejado que pode acompanhar essa ação – a ressaca de frustrações. Parar e perceber nossas esolhas em tempo real é como tentar enxergar coisas muito pequenas, que fogem do nosso raio de percepção. Elas estão lá, mas não conseguimos reconhece-las. É como se tateássemos no escuro a procura de agulhas em palheiros gigantescos. Parece complicado, certo? E é, mas está longe de ser impossível.

Esse intervalo entre o que teria sido e, o que está por vir, movimenta uma engrenagem poderosa que nos desafia a cada instante. Ser quem somos é uma soma de escolhas. Ser quem gostaríamos de ser, mas não somos, é uma projeção das escolhas que não tivemos. Parece confuso, mas esse caldeirão de possibilidades é o que nos ajuda, diariamente, com as escolhas que fazemos, sejam elas conscientes ou não. Mas, independente das portas que se abrem ou fecham por conta das nossas opções, é preciso ter muita clareza que, a tomada de decisão é pessoal, intransferível e gera desdobramentos. Ou seja, fazer escolhas nem é tão complicado assim, agora, sustenta-las…

Esse texto não trata da dificuldade que cada um tem com as suas escolhas e, sim, em como elas sacodem as nossas vidas, como se estivéssemos à deriva em um mar revolto, aguardando por um resgate que nem sempre aparece. Escolhas provocam turbulências, sacolejos e surpresas, como em um jogo onde não sabemos qual será a próxima fase. Não escolher, nos coloca como observadores de uma tela que retrata uma bela paisagem com a qual jamais seremos capazes de interagir. Diante desse panorama, qual seria a sua escolha?

No fundo, o que todos queremos é que nossos caminhos sejam sempre incríveis e repletos de boas escolhas. Sonho? Sim, e daí? Acreditar que a trilha será tranquila e feliz, é o que nos faz seguir em frente, mesmo sabendo que aquilo que escolhemos, impacta a todos que estão ao nosso redor e o contrário também é verdadeiro. Acomodar-se nas escolhas do outro e permitir que outros sejam acolhidos pelas nossas decisões, é o grande desafio dessa brincadeira.

Boas e más escolhas vão e vem. Ora elas trazem luz, ora escurecem tudo a nossa volta. O que devemos fazer diante disso? Imaginar como teria sido se tivéssemos feito diferente, pode ser um bom começo para que novas possibilidades, transformem-se em realidade. Só que, para isso, não há receita de sucesso. O que nos deixa diante de uma situação nada fácil – viver intensamente, cada uma das nossas simples escolhas.