A pluralidade do silêncio

Tantas coisas a dizer. Tantas coisas para ouvir. Mesmo sabendo disso, por que escolhemos o silêncio nos momentos em que apenas um grito poderia falar por nós? Difícil dizer… A pluralidade do silêncio serve para uma infinidade de situações. Em algumas, silenciar-se pode ter o efeito de uma cortina de fumaça que nos coloca em um anonimato confortável, porém, há momentos em nossas vidas em que discursos, términos e revoluções arrebatadoras se fazem sem que nenhuma palavra seja dita.

É curioso pensar sobre algo que nos acompanha do início ao fim possa causar tanto desconforto. Todos nós já protagonizamos cenas onde palavras deram lugar a longas pausas sem voz, olhares perdidos e pensamentos acelerados em busca de algo a dizer. Típico daqueles momentos em que encontramos alguém que há muito não víamos, de quem sabemos muito pouco e para quem não temos quase nada a falar, além das perguntas básicas que aprendemos na cartilha do  comportamento social superficial.

Mas, quem dera não ter o que dizer, fosse algo circunstancial e desimportante. As palavras travadas na garganta podem estar aprisionadas por diversas razões, que só conseguiremos compreender se olharmos para dentro, em busca da origem do nosso silêncio. Calar-se é, em última análise, uma forma de expressar sentimentos difíceis de explicar, o que leva, quase sempre, a interpretações tortas, mal-entendidos e respostas repletas de frases vazias.

Isso me faz lembrar daquelas pessoas quietas na escola que tentavam, sem muito sucesso, passar incólumes pela massa de crianças barulhentas. Como se suas capas de invisibilidade tivessem vindo com um defeito de fábrica e que, ao invés de escondê-las, as expunham ao olhar de todos, criando uma fonte inesgotável de angústias e sofrimento. À medida que o tempo passa, começamos a entender que há pessoas do barulho, mas também há pessoas do silêncio. A grande questão é a enorme quantidade de erros que cometemos com ambos, até que essa lição seja aprendida.

Que silêncios podem romper barreiras, não se discute, mas sabemos que, em muitos casos, não dizer o que se passa dentro de nós, cria abismos que aumentam com o passar do tempo. O que provoca um efeito dominó perverso onde uma peça que cai, leva a próxima e mais uma, até que a distância entre o que antes estava ao lado, transforma-se em milhares de quilômetros de uma estrada encoberta por uma neblina. Cada sentimento não dito corresponde a uma atitude descartada, a um sorriso desprezado ou a uma lágrima desnecessária.

Porém, não é sempre que podemos controlar quando, como e por quanto tempo ficaremos quietos. O silêncio pode ser imposto. Isto pode acontecer aos poucos, de forma quase imperceptível onde, a cada dia, somos levados a acreditar que nossa opinião não é tão importante. Mas, sem dúvidas, a pior forma de imposição do silêncio, é a força. Nesse caso, a privação da voz é mantida pelo medo, pela covardia e pela insegurança de quem quer calar aqueles que tem argumentos poderosos.

Nos habituamos tanto a ouvir aquilo que berra aos nossos ouvidos, que não percebemos mais a eloquência por trás do silêncio, seja ele solitário ou coletivo. Às vezes, observar o cotidiano a uma distância segura, é uma chance de apreender o que se passa a nossa volta com mais clareza. Escutar as vozes do silêncio nos permite organizar sentimentos que podem, sobretudo, expressar o que somos e o que queremos de fato. Falar o tempo todo é ruim e abrir mão da própria voz, é perigoso. A melhor forma de interagir com o mundo é estar disponível para ouvir mais, falar quando necessário e perceber que o silêncio sempre tem muito a dizer.