A inveja mora ao lado

Se eu fosse você não faria isso! Olha, não acho que essa roupa ficou boa em você! No seu lugar, eu não viajaria agora! Acho que esse novo amor não te serve… Todos nós já ouvimos coisas parecidas vida afora. Mas o que leva algumas pessoas a despejarem, sem dó, frases nada motivadoras sobre as outras, ao menor sinal de entusiasmo alheio? Acho que sabemos a resposta…

Ah, a inveja! Aquele sentimento sorrateiro que nos faz cobiçar o que não é nosso e querer o que é do outro. Até aí, tudo bem. Ouso dizer que somos todos invejosos em algum nível. Querer o que não se tem, significa dizer que nos interessamos pelo que é do outro, mas que, infelizmente, está fora de alcance.

A inveja nos impulsiona. Pode parecer estranho, mas somos movidos pela vontade de chegar a lugares conquistados por outros e a posições ocupadas por quem chegou antes de nós. Isso não nos torna maus, mas alimenta uma engrenagem que nos obriga a querer sempre mais daquilo que não temos.

De forma superficial, relacionamos a inveja com maldade. Claro que há uma correlação, mas de forma geral, os invejosos são algozes ocasionais que desempenham funções importantes. São eles os responsáveis por inesperadas puxadas de tapete, depreciação de nossas qualidades óbvias e por criar intrigas em círculos sociais.

Os livros, filmes e novelas adoram retratar os conflitos provocados pela inveja e, portanto, nos levam a crer que não sucumbimos a ela na vida real. Que grande equívoco! A ficção carrega nas tintas ao tratar o tema, mas é o cotidiano que nos apresenta a inveja com sutiliza e em silêncio.

Apesar da má fama, a inveja nos proporciona mudanças de comportamento que não seriam possíveis sem a sua influência. Por exemplo, ser passados para trás nos torna mais cuidadosos e vigilantes; ser alvo de intrigas promove um olhar mais seletivo sobre as pessoas ao nosso redor e, ouvir críticas negativas e gratuitas sobre nossas qualidades e planos, nos obriga a estar mais atentos e cautelosos.

Todas essas características são armas importantes na infinita batalha que travamos diariamente. Ficamos mais preparados para lidar com essas situações porque, à medida que somos expostos às várias formas de inveja, criamos anticorpos cada vez mais resistentes, o que é um efeito colateral muito bem vindo.

Considero a inveja e seus agentes, os grandes antagonistas em nossas vidas, uma vez que, a partir deles, muitos sentimentos e sensações difíceis podem aflorar e se contrapor às virtudes que tanto prezamos. Isso é, sem dúvidas, uma ferramenta essencial na formação do caráter e diz muito sobre quem somos. Ceder aos caprichos da inveja, normalmente, leva a caminhos tortuosos e um tanto cinzentos, já que o brilho perseguido pelos invejosos vem sempre da luz do outro.

É muito difícil perceber de onde vem e quem traz a inveja consigo. Muitos são capazes de viver anos a fio em contato direto com pessoas que, por vezes, são consideradas cuidadosas e amigáveis, mas que estão sempre dispostas a frear sonhos e, de forma discreta, vão minando desejos e esperanças.

O que nos transforma em invejosos perversos é a vontade de chegar a um lugar e depor, sem pudores, o ocupante daquela vaga. Não por merecimento, mas por pura vaidade. É importante saber onde se quer chegar, mas é primordial ter em mente por quais caminhos se pretende seguir para alcançar o que se deseja.

Triste é viver sem emoção

Assistir a uma cena, seja real ou fictícia pode, subitamente, provocar um sorriso, uma lágrima, um alívio ou até mesmo um medo. Todas são reações possíveis diante de um estímulo mas, o que é capaz de nos tocar e baixar a vigilância da consciência, a ponto de permitir que sensações e emoções venham à tona?

Todos nós sentimos o mundo ao nosso redor de um jeito bem particular. Há aqueles que se emocionam em filmes, com novelas ou comerciais de TV. Outros são tocados por literatura, peças de teatro, textos da internet e, ainda existem os casos extremos, daqueles que se comovem por tudo e dos que estão sempre indiferentes a maioria das coisas.

Independente do estilo de cada um, é sempre muito bom sentir. Tenho a impressão de que quanto maior for a nossa disponibilidade para as emoções, mais equilibrados e melhores ficamos. Quando se pensa em sentir, é necessário incluir nesse pacote, não somente as emoções que nos trazem bem estar, mas também aquelas que mostram a realidade dura e sem rodeios, tão presente no universo de cada um de nós.

Vivemos fortemente cercados por sensações de todas as naturezas e intensidades, que nos bombardeiam sem piedade. Talvez este seja o momento da nossa história onde temos a mais ampla oferta de fontes de emoções. Porém, ironicamente, estamos cada vez menos sensíveis e interessados em tudo aquilo que é capaz de nos emocionar.

A velocidade alucinante imposta por nosso estilo de vida, acaba impedindo que fiquemos concentrados em qualquer coisa por muito tempo, e isso vai diluindo a nossa percepção sobre as pequenas coisas que, sob o ponto de vista correto, poderiam nos emocionar intensa e verdadeiramente.

Como não endurecer? Esse é certamente um exercício muito difícil, uma vez que cada um sabe onde o sapato lhe aperta mais e quais as dores e delícias que temos de enfrentar diariamente para sermos quem somos. De todo modo, resistir é uma obrigação e, de forma quase heróica, precisamos preservar aquilo que nos diferencia uns dos outros e nos permite mudar inúmeras vezes, baseado nos estímulos que nos afetam e que chamamos de emoções.

Seja a visão de um casal de idosos caminhando de mãos dadas ou de uma criança que sofreu maus tratos, em ambos os casos, sentimos que nossos corpos se alteram, às vezes de forma sutil, às vezes com violência, mas, independente da reação final, são as nossas emoções as responsáveis por nossa capacidade de reação.

Quando no apaixonamos, ficamos absolutamente à mercê de sensações que, normalmente, não fariam a menor diferença. O coração não saltaria pela boca quando recebemos um telefonema ou uma mensagem de texto, nem tampouco acharíamos graça de piadas do gosto duvidoso. Pequenos exemplos de como nossas emoções nos transformam e nós sequer percebemos.

Extremos emocionais à parte, poucas coisas são tão agradáveis quanto sentir nossas emoções em doses suaves. Imagine sentar em algum lugar que nos faça sentir bem e contemplar tudo aquilo que estiver em nosso campo de visão. Crianças correndo, casais brigando, cachorros latindo, pessoas se exercitando… Garanto que todos visualizaram estas cenas e que, cada uma delas, foi capaz de despertar sensações diferentes motivadas por emoções distintas.

Nossas emoções poderiam ser, facilmente, mais um dos nossos sentidos. É a partir delas que percebemos o mundo e as pessoas que nos cercam e é a partir delas que trocamos experiências de todos os tipos. Tornar-se indiferente e imune às emoções é, sem dúvida, perder uma maneira deliciosa de se relacionar consigo e com o mundo.

O mundo nunca é o mesmo

Ninguém desce duas vezes o mesmo rio. Concordo com Heráclito, o filósofo. Pensando sobre isso, pude, de forma perturbadora, analisar momentos vividos, atitudes tomadas e desfechos para um sem número de situações que nunca ficaram muito claras. Até agora…

Entender essa afirmativa é perceber a transitoriedade das coisas ou, de forma mais simples, compreender que o mundo muda o tempo todo e que nós, em muitos momentos, não percebemos ou nos recusamos a aceitar as mudanças que a vida nos impõe.

Normalmente acreditamos que somos únicos, mesmo sendo formados por incontáveis experiências. Seguimos acreditando que somos como somos e que mudar é para os outros, não para nós. Doce ilusão!

Somos vários em um só na maior parte do nosso tempo, mesmo sem perceber. Mudamos ao entrar em casa, ao chegar para trabalhar, quando vamos à festas ou estamos absolutamente sozinhos. Oferecemos uma face de acordo com o tipo de espelho que encaramos.

Perseguimos situações que não vivenciamos, pessoas que não conhecemos e amores que não vivemos. Isso promove um fluxo de desejos bastante intenso, onde cenários e atores mudam com frequência, e isso, nos impede de prestar muita atenção ao que se vê ou se sente e, à medida que nos deparamos com  o crescente número de possibilidades, maior é a nossa dificuldade em descobrir qual porta devemos abrir.

Mas, onde nasce o nosso fascínio pelo novo e diferente? E quando, de fato, percebemos que precisamos e podemos mudar? Arrisco dizer que as mudanças só acontecem a partir da observação cuidadosa sobre o que nos cerca. Um bom observador é capaz de traçar caminhos a partir de experiências adquiridas ou apreendidas.

Quem nunca sentiu a sensação de estar parado no tempo enquanto o mundo e as pessoas continuam caminhando, menos você? Penso sobre isso com alguma regularidade e me pego fazendo planos para mudanças imediatas, o que nem sempre dá certo. Perceber que os dias são sempre iguais, além de um bom sinal de alerta, ajuda a planejar sua mudança particular com mais cuidado.

Mudar não se baseia apenas na vontade. Percebemos o que nos faz sonhar com mudanças, mas o que de fato nos instiga a enfrentar a novidade são nossas experiências e os exemplos que miramos, como bons empregos, salários mais altos, temporadas em outro país, ter filhos, conseguir meditar ou simplesmente ganhar o pão de cada dia… a vontade é apenas o primeiro passo.

É preciso ter em mente que neste exato momento, ocupamos um lugar no mundo que é fruto de mudanças feitas lá atrás, conscientes ou não. Para muitos de nós, o trajeto feito até este ponto foi praticamente automático e sem maiores planejamentos. Para outros, cada passo da estrada foi criteriosamente pensado e executado.

Independente da forma como pensamos, as mudanças chegam e transformam o que conhecemos como realidade, inclusive quando nossos planos não saem como esperado. Todo mundo conhece alguém ou já passou por situações semelhantes. Amigos que perderam um ente querido, que enfrentaram os desafios de uma paternidade precoce, que foram demitidos de seus empregos de forma inesperada e começaram uma nova atividade profissional. Ainda há aqueles que usaram as próprias histórias, por vezes esquecidas, para trilhar novos rumos.

Sempre seremos capazes de pavimentar novos caminhos que ajudarão a construir quem seremos no futuro. O tamanho da diferença entre quem se é e onde se quer chegar dependerá do apetite que cada um tem por mudanças.

Uma vontade. Um plano. Disponibilidade para o novo. Estes são passos muito importantes quando se pretende mudar algo, mas é preciso aceitar que são apenas partes da engrenagem de um mundo que nunca é o mesmo e isso nos afeta cotidianamente. Como disse Heráclito, nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros… Quanto mais disponíveis estivermos para as mudanças, mais experiências teremos e maior será a nossa troca com o transitório mundo em que vivemos.

Os filhos do querer

Querer… Talvez este seja, não importa o idioma, o verbo mais utilizado pela humanidade. Querer engloba tantas outras ações como desejar, amar, consumir, explorar, ganhar, enriquecer, viver… Uma palavra simples que nos leva à realização de todos os nossos desejos, ou pelo menos a tentativa de realizá-los.

Aprendemos desde muito cedo a saber o que queremos e o que não queremos. Quem nunca dividiu as pétalas de uma flor desejando o “bem me quer” no final? Querer bem é sempre o que se deseja, não é?

Nossos desejos estão muito relacionados às conquistas. Estamos sempre na busca pelo que consideramos maior e melhor. Para mim, o querer dá origem ao que nos torna genuinamente humanos: nossas emoções.

Sempre queremos coisas em quantidade e formas variadas e como somos muitos, estamos sempre prontos a disputar por tudo, com todos. Praticamente todos os seres desse planeta disputam por alguma coisa. A competição é uma mãe capaz de gerar filhos muito peculiares. A vitória, a derrota, a frustração e a perseverança são bons exemplos dessa prole.

Nessa disputa, o desejo da maioria seria sempre o sucesso e a glória mas, como bem sabemos, não é possível vencer sempre que se deseja, logo, a vitória, a filha mais bela, não está acessível a todos.

É possível pensar em tantas gerações espontâneas a partir desses primeiros rebentos. Orgulho e arrogância, persistência, vaidade, felicidade… certamente seriam descendentes da vitória e, em contrapartida, da derrota surgiriam a decepção, inveja e rancor. Frustração e perseverança seriam os fiéis da balança, permitindo o direito de escolha entre a estagnação e a capacidade de seguir em frente, apesar de tudo.

Felicidade, amor e ódio também surgem da nossa capacidade de querer. Quantas vezes ouvimos a célebre frase de pára-choque “não tenho tudo que amo, mas amo tudo o que tenho”? E ter tudo o que se ama é sinônimo de felicidade. Mas, há limites para o querer? Confirmar o amor pelo que se tem não é, nem de longe, afirmar que não se quer mais e mais. Dessa forma, essa corrida maluca sempre terá um novo começo.

É quase poético pensar nas emoções como uma família grande e muitas vezes desajustada, com muitos descendentes nascidos de cruzamentos aleatórios, forjando nossa humanidade. Perceber o mundo além dos nossos instintos primitivos nos confere um status de exclusividade.

Há quem diga que somos únicos na natureza… resquícios do nosso antropocentrismo, certamente. Mas, seguindo por essa estrada, nossa exclusividade está relacionada aos nossos desejos, necessidades e vontades que se relacionam gerando descendentes férteis que se recombinam de diversas formas e em intensidades absolutamente não programadas.

Se olharmos bem de perto, o querer humano também gerou gêmeos antagônicos que podem nos equilibrar ou desestabilizar completamente. Não concorda? Vamos lá… Amor & ódio. Vitória & derrota. Felicidade & tristeza. Arrogância & humildade. Medo & coragem…

Reagimos a tudo a partir de nossas emoções. Quando conquistamos algo muito desejado, quando perdemos uma coisa importante ou quando estamos inertes de frente da TV numa tarde chuvosa de domingo… lá estarão nossas emoções, interagindo entre si, determinando aquilo que chamamos de estado de espírito.

Repararam que não estamos falando de coisas concretas e tangíveis? Jamais tratamos nossas emoções de forma pragmática. Embora a neurociência explique que, todas as variações dos estímulos cerebrais são provocadas por hormônios, neurotransmissores e uma infinidade de substâncias químicas sintetizadas pelo nosso corpo, continuamos, de forma rebelde, a tratar nossas emoções não como manifestações científicas, possíveis de mensurar, mas como algo que deva ser sentido, sem fazer muito sentido.

A verdade é que aquele querer inicial se desdobrou em diversas emoções, mas não se perdeu, apenas mudou. O querer sempre será nosso ponto de partida. Dele, podemos seguir por muitos caminhos, por vezes retos e tranquilos, por vezes sinuosos e inconstantes, mas, mesmo sem um plano de voo prévio, imaginamos que a jornada será repleta de emoções de todas as formas, cores e em diferentes doses. Como saber? Não se pode. Apenas uma certeza nesse caminho… O querer é o que nos move.

Novos tempos

Todo fim de ano é igual. Fazemos promessas sem limites, desejamos mais saúde, mais dinheiro, amor e prosperidade. Até aí tudo bem, pois, de maneira geral, depositamos todas as nossas fichas no futuro, acreditando que o inesperado e o desconhecido realizem todos os nossos desejos.

Estamos sempre tentando suprir nossas carências através da busca por aquilo que não alcançamos e por coisas que nem sabemos direito se queremos ou não. O que é absolutamente normal, uma vez que a capacidade de projetar em sonhos os nossos desejos não conhece limites. O conjunto que reúne nossas vontades e incertezas é o combustível que alimenta um dos nossos melhores sentimentos: a esperança!

Esse é, sem dúvidas, o sentimento que nos faz olhar para frente e acreditar que no futuro reside a fonte dos nossos desejos realizados e, independente do tempo, em algum momento transformaremos em realidade os nossos sonhos.

O novo ano traz consigo essa capacidade de reunir milhões e milhões de pessoas a partir da união de suas esperanças e desejos. Que podem ser de origens muito diferentes, mas que, certamente, tem como grande objetivo, a transformação de suas vidas para melhor. Ainda que o mundo, a vida e as circunstâncias nos conduzam por caminhos com muito mais curvas do que retas, a nossa vontade, quase irracional, de realizar nossas promessas, nos impulsiona a seguir, apesar dos pesares.

Mas, se todos estão em sintonia na busca pela concretização dos seus anseios, por que então, as coisas nem sempre saem como se espera? Muitas vezes não medimos muito bem a distância entre o sonho e a realização, o que pode, com freqüência, provocar a sensação de que existem sonhos possíveis e outros nem tanto.

Desejar sem planejar pode aprisionar nossos projetos na categoria de sonhos. O que, de certa forma, nos exime da frustração provocada por possíveis insucessos, uma vez que sonhos são etéreos e não precisam ser obrigatoriamente realizados. Sendo assim, criamos estradas paralelas que se conectam vez ou outra. Uma delas abriga sonhos rasos e sem maiores planejamentos, daqueles que nos permitem desejar por um sapato, uma viagem ou um carro e que, com algum esforço, conseguimos realizar. Na outra via, enxergamos os sonhos mais antigos, grandiosos e, teoricamente, mais difíceis de concretizar.

Qual seria o propósito de seguir por vias paralelas que apresentam limites de velocidade e paisagens tão distintas? Percebo muitas respostas, mas esta talvez seja, mesmo que de forma inconsciente, a estratégia que encontramos para nunca deixar de sonhar e continuar seguindo em frente, uma vez que o cotidiano é, em muitos momentos, o responsável por apagar as cores vibrantes dos nossos sonhos.

E quando isso acontece, ficamos diante de um dilema: endurecer diante da vida, nos tornando menos sensíveis ao mundo que nos cerca ou acessar a estrada dos sonhos exuberantes e assim redescobrir o prazer de se transportar para dimensões que nos permitem ser o que quisermos ser.

Sonhar é bom. Sonhar é indispensável e nos garante uma agradável lucidez. Mas sonhos carecem de realização. Pôr em prática aquilo que projetamos intimamente nos deixa plenos e ávidos por novas conquistas. E se a travessia que fazemos ao longo dos 365 dias nos afasta das nossas promessas particulares, é na transição entres os anos velho e novo que recuperamos, de forma arrebatadora, a nossa capacidade de sonhar, de avaliar o que passou e fazer novos planos.

A chegada de um novo tempo é, também, o momento de renovação daquele sentimento que nos pega pela mão e mostra que o novo estará disponível para realizações, quedas, aprendizados e surpresas e que, para isso acontecer, basta apenas uma coisa: ter esperança! Feliz ano novo!!!

Então é Natal!

Então é natal! Acho que esta constatação é sentida de formas muito particulares. Religiosos exaltam a chegada de Jesus Cristo. Crianças anseiam por presentes. O comércio espera por recordes de vendas e os pais preparam banquetes que serão devorados em família. Percebo que este é um roteiro seguido por quase todo mundo, mas certamente, esta data supera, e muito, o senso comum.

Sempre que o ano novo começa, projetamos o próximo natal para um futuro bem distante mas, de forma sorrateira, ele parece chegar muito antes e nos pega de surpresa quando nos deparamos com canções e decorações natalinas espalhadas pela cidade.

Na verdade, o tempo continua seu curso normal e apressado como sempre, porém, diferente de outras datas festivas, o natal é capaz de confrontar a nossa correria diária, nos obrigando a mudar o comportamento habitual, como se dissesse “Parem o que estão fazendo, pois preciso de atenção!” Ordem que atendemos prontamente.

Não concorda? Então vamos lá. Em que outro momento do ano nos programamos tanto para um evento? Quando participamos de tantas confraternizações e encontros com amigos, a ponto de não sobrar mais espaço na agenda? Em que outra situação queremos presentear pessoas queridas? E, acima de tudo, em qual outra época do ano nos forçamos a estar em família? É aí que o natal se mostra muito mais especial. Nos reaproximamos de muitas pessoas que ficaram pelo caminho ao longo de um ano difícil e, como sempre, muito corrido. Lembramos de amigos há muito esquecidos e resolvemos dizer um oi, desejar um dia feliz e, com isso, recebemos as felicitações de volta. Este gesto se repete tantas vezes que talvez crie um dos maiores e mais espontâneos fluxos de bem querer que conheço.

Essa onda de energia positiva se materializa na vontade de ajudar ao próximo de alguma forma, seja com lembranças, seja com abraços ou com visitas aos que não estão conectados a esta rede invisível de amor e carinho. Para muitos, o natal significa tristeza e por motivos distintos. Talvez o fato de se sentirem excluídos da catarse coletiva que este período promove na maioria de nós, seja o ponto que os une. Porém, a grandiosidade desta data é tão impressionante que pode, facilmente, transformar dor em alento, abandono em ternura e rancor em esperança.

Muitos atribuem um espírito ao natal. Prefiro pensar em coletividade. Em múltiplos desejos e em muitos espíritos em comunhão, vibrando na mesma sintonia e isto nos faz pensar em fazer o bem, de forma ampla, para além daqueles que amamos e estão por perto. Isso nos confere uma grandeza que não experimentamos o tempo todo mas que ao senti-la, somos capazes de transbordar aquele sentimento que não tem sido visto com muita frequência nas relações humanas em tempos tão difíceis… o amor.

Todas as sensações que sentimos no período de natal são maravilhosas, mas também trazem consigo a dúvida e a reflexão. Por que não agimos assim o ano inteiro? Que essa pergunta seja respondida da melhor forma por cada um de nós mas, a simples possibilidade de nos confrontarmos com a forma como lidamos com o mundo a nossa volta, já é um passo importante.

É provável que pensemos o quão pouco fazemos cotidianamente para tornar a vida mais simples, o quão pouco fazemos para transformar o mundo em um lugar menos hostil. Mas o natal está aí para nos mostrar, nem que seja uma vez por ano, que somos capazes de promover mudanças positivas, de pensar no bem estar de pessoas desconhecidas, de querer o bem e que vidas podem ser transformadas com pequenas e singelas atitudes. Basta querer. Feliz Natal!

O que eu quero ser quando crescer?

Desde sempre somos bombardeados por influências de todos os lados. Isso significa que somos, de alguma maneira, obrigados a nos encaixar em formatos pré-estabelecidos desde muito cedo. Porém, quando crianças, somos capazes de alcançar os lugares mais inusitados apenas usando a nossa fértil imaginação e, para isso, basta usar a mágica pergunta “o que eu quero ser quando crescer?”

Com o passar dos anos, os anseios de se transformar em bombeiros heróis, astronautas na lua, médicos de formigas e pilotos de foguete, dão lugar a sonhos mais pragmáticos e que, normalmente, apresentam a vida como ela é. Prática e sem rodeios.

Ainda muito jovens, começamos a olhar o mundo a nossa volta e estabelecer padrões que podem ser seguidos, às vezes por vontade própria, às vezes… No geral, seguimos os caminhos previamente traçados por quem veio antes de nós. Pais, professores, tios ou amigos próximos. Talvez façamos isso porque vemos nessas pessoas, modelos bem sucedidos de como ganhar o pão nosso de cada dia.

Com isso, as crianças piratas do espaço, caçadoras de tesouros perdidos e bailarinas das nuvens, cedem lugar a jovens trabalhadores que, muitas vezes, constroem suas estradas na direção oposta dos seus sonhos. Não pensem que isto é uma crítica, é apenas uma constatação.

Há muitas gerações, as pessoas escolhem ou são levadas a escolhas que podem se tornar certezas para o resto de suas vidas. Este é um ciclo muito natural para a grande maioria até os dias de hoje, afinal, é muito difícil escapar do impiedoso rolo compressor que é a vida adulta, sempre cheia de urgências e sem tempo a perder. Mergulhados no olho desse furacão, não nos damos conta que, dentre todas as situações que nos são impostas, somos obrigados a deixar sonhos marotos adormecidos e bem escondidos em nossos compartimentos mais íntimos.

Para alguns, isso pode causar alguma angústia ou frustração, mas a vida nos mostra que decepções só são percebidas quando temos consciência das escolhas que abraçamos. Outros tantos, acreditam que suas escolhas não provocaram perdas, são frutos apenas frutos de planejamento e determinação. O que é incrível!

De todo modo, o olhar para dentro e o auto questionamento são para lá de saudáveis. Cada período de nossas vidas imprime um “EU” diferente em todo nós que, de tempos em tempos, resolvem coexistir, o que pode ser ótimo, pois nos possibilita resgatar bons hábitos e ainda desenvolver novos pontos de vista.

Isso me faz acreditar, cada vez mais, que somos os principais agentes responsáveis por nossas transformações que, muitas vezes são tão sutis que sequer percebemos quando de fato acontecem.

Tudo isso serve para ilustrar que, apesar das nossas escolhas prematuras, continuamos a ser muitos e quanto mais o tempo passa, mais diversos e interessantes podemos ser e, sem medo de errar, podemos e devemos criar túneis e atalhos, e até algumas paradas, em uma estrada que foi construída para seguir em linha reta.

Então, quando se perguntar o que quer ser quando crescer, tenha em mente que crescer nunca é um ponto final e que nossos anseios infantis adormecidos podem acordar a qualquer momento e reclamar seu lugar de direito, decidindo que crescer não tem a ver com idade ou conquistas, e sim, com a vontade de viver.

Crises particulares

Muito se fala sobre crises, de todos os tipos e proporções. Sejam elas em relações de trabalho, amor ou políticas, mas independente da situação em si, o que chama a atenção é a sua origem e não o seu efeito. Qual é a origem de uma crise? É uma pergunta desafiadora, uma vez que nos impõe uma análise sobre os reflexos de decisões tomadas no passado e isto é bem difícil. Mas, dentre tantas opções, é melhor escolher apenas um motivo que seja responsável por alterar a maioria das pessoas, a crise provocada pelo avanço do tempo… Um clássico!

Para cada fase da vida, uma crise. Talvez a grande questão desse tema esteja relacionada com a forma de absorver o que se passa a nossa volta. Já repararam que, quase todo mundo costuma classificar a própria juventude como a melhor época de suas vidas? Ou ainda, que as crianças de hoje jamais saberão como a vida era boa em outros tempos… Será verdade ou puro romantismo? Uma coisa é certa, esse ponto de vista será repetido por muitas e muitas gerações.

Se atribuirmos velocidades às diferentes fases da vida, talvez seja mais fácil  entender algumas certezas. Na infância e adolescência pegamos carona em um jato supersônico, uma vez que a quantidade de coisas para ver, sentir, descobrir e aprender é tão descomunal que não há como registrar tudo. Isso explica, em parte, nossas memórias um tanto borradas e confusas desse período. Tínhamos muito a fazer em pouquíssimo tempo, o que nos forçou a filtrar, de alguma forma, as experiências que deram certo e que no presente, são usadas para justificar o quão fomos únicos e especiais no passado.

À medida que envelhecemos, conseguimos desacelerar um pouco. O que nos permite interagir com o mundo de forma mais organizada, mas ainda assim, temos muita coisa a fazer. Muito para amar, chorar, beber, sorrir e conquistar… Só que o tempo continua em seu ritmo acelerado, nos obrigando a fazer escolhas difíceis que, muitas vezes, provocam consequências por décadas.

Porém, chega a um ponto da nossa trajetória em que fazemos as pazes com o tempo e, enfim, conseguimos ver as coisas como elas realmente são. Enxergamos nossas vidas em alta definição, com imagens que expõem detalhes até então invisíveis. E é neste ponto que percebemos como nossas decisões pregressas, conscientes ou não, foram fundamentais na nossa construção pessoal.

Talvez isso aconteça aos 30, 40, 50 anos… tanto faz. O que realmente importa é perceber o momento em que nos tornamos capazes de contemplar a vida em suas cores reais, sem distorções. Isso, certamente, traz algum desconforto. Obrigando que um novo movimento seja feito na busca por novas escolhas, provavelmente mais serenas, que irão ditar as próximas etapas da nossa jornada.

Esta é a hora em que colocamos em xeque tudo aquilo que fizemos. Se o preço pago foi justo, se queremos continuar trilhando a mesma estrada ou não… Perceberam como estas questões são incômodas? Acho que isso nos ajuda a entender o que chamamos de crise, seja ela existencial, de meia idade ou outra qualquer. Crise ensina que lugar comum ou zona de conforto não são eternos. Crise nos permite revirar nossos baús até encontrar peças de reposição que acumulamos ao longo do tempo, sem perceber.

Explorar a nossa capacidade de renovação nos possibilita encontrar saídas onde antes existiam muros de pedra e resgatar velhos sonhos abandonados pela estrada. Por esse motivo, a necessidade de renascimento talvez seja a melhor resposta quando nos perguntarmos qual é a origem de nossas crises. Dessa forma teremos sempre a certeza que, em algum momento, seremos sempre capazes de seguir em frente, mesmo sem saber aonde ir.

Colcha de retalhos

Das muitas perguntas que me faço o tempo todo, nenhuma consegue ser tão recorrente e incômoda quanto “Quem sou eu?” Pode parecer um tanto doido mas, tentar saber quem somos, ajuda a viver melhor não só com os outros mas com nós mesmos.

Mas por que essa pergunta é importante se temos tanto a fazer diariamente e não sobra tempo nem para lembrar qual foi a última refeição? É aí que está o “xis” da questão. Tudo passa tão rápido a nossa volta que percebemos muito pouco do que está diante dos nossos olhos. Estamos sempre seguindo em frente com tanta convicção de que o melhor ainda está por vir, que deixamos de sentir as marcas que o cotidiano nos imprime.

Saber o que melhor nos define é um desafio. Normalmente, temos um monte de respostas prontas sobre tudo e todos, mas quando se trata de apontar o dedo para a própria cara, a conversa muda de figura… Para buscar respostas que expliquem melhor quem somos é preciso se despir das várias camadas de pele que acumulamos ao longo da caminhada. E um bom começo para isso é mergulhar em uma viagem ao seu universo particular.

Nascemos em meio a um conflito familiar. Nossos pais, na árdua missão de nos educar, projetam suas expectativas sobre nós dando início, mesmo que sem querer, as muitas pessoas que seremos ao longo da vida.

À medida que crescemos, começa o bombardeio de influências. Do popstar do momento, àquela querida professora de português. Sem contar que, dependendo do amor da vez, podemos ser maratonistas, amantes de cinema iraniano, mochileiros sem destino ou obcecados por dietas sem glúten. Tudo bem! Novas experiências são sempre bem vindas.

É óbvio que uma resposta rasa não contempla a diversidade que nos forja, mas ajuda a elaborar mais e melhor uma opinião sobre quem fomos e sobre quem queremos ser. De cara, isso permite constatar que somos muitos em um só. E isso é ótimo!

A combinação entre nosso eu verdadeiro e quem gostaríamos de ser funciona, ao mesmo tempo, como partida e chegada. A nossa realidade, por vezes rígida e engessada, é sempre por onde começamos. É a partir dela que projetamos quem poderíamos ser, onde gostaríamos de estar…

E isso só é possível porque aprendemos desde muito cedo, que para sobreviver precisamos ser muitos. Alguns reais, outros nem tanto… Quem nunca, em um momento de dureza, se imaginou como o mais novo milionário da loteria e se pegou fazendo mil planos? Ou ainda, quem de nós, durante os encontros de família, ouvindo estórias da nossa velha infância nunca sentiu o coração pular de felicidade ao relembrar da criança que fomos? Maravilhosos momentos de encontro com quem fomos e com quem poderíamos ser.

E como estaremos daqui a 15 anos? Você pode perguntar em uma roda de amigos, mas para essa pergunta não há resposta, só possibilidades. Sabemos que há uma década tínhamos sonhos, um grupo de amigos, um gato ou um cachorro, freqüentávamos uma boate, ouvíamos o mesmo estilo musical e sempre batíamos ponto no mesmo boteco… E hoje? Onde estão nossos grandes amigos? O bar de sempre fechou 5 anos atrás. A boate virou um shopping e aquelas músicas que amávamos se tornaram os hits mais bregas da história. Parece triste? Mas não é! O tempo passou e nos transformou, só isso.

A única certeza é que daqui a 5, 10 ou 15 anos, seremos outros. Mais diversos e com novas estórias pra contar. Cheios de novas capas e camadas que vão vestir a nova pessoa que seremos, e ajudarão a trilhar novos caminhos, repletos de diferentes perfumes, sabores, sorrisos, cores e amores, adicionando mais detalhes a nossa linda e surpreendente colcha de retalhos.

Tempo, pra que te quero?

É fato que a vida no mundo virtual se transformou na extensão da nossa existência na vida dita real e, muitas vezes, a mescla entre essas realidades é tão forte que fica difícil dizer o que é real e o que parece ser. Quanto mais vivemos a cyber realidade, maior é o nosso distanciamento das coisas que antes eram preciosas. Saudosismos à parte, é apenas a constatação do óbvio.

À medida que a vida segue em mega velocidade, fica mais difícil apreender tudo o que vivenciamos. Outro dia começamos a usar o telefone celular para criar uma conexão móvel por voz com outras pessoas, mas hoje, este aparelho nos leva pra tantos lugares e nos apresenta a pessoas de formas tão diferentes que a última coisa que lembramos é de usá-lo para ligar e dizer um simples… oi.

De uma forma muito frequente, percebo que a noção de tempo está absolutamente alterada e, acho possível afirmar que já dominamos de alguma forma, a magia do teletransporte. Parece maluquice, mas é verdade. Não me refiro a transferência dos nossos átomos no espaço com o uso de máquinas mirabolantes, como na ficção científica. Nossa forma de deslocamento necessita de um outro tipo de equipamento, mais simples, conectado à rede, com mil aplicativos, redes sociais e que, claro, caiba na palma da sua mão. Pronto. Com essas ferramentas você será capaz de atravessar distâncias continentais e terá a nítida impressão que tudo se passou num piscar de olhos.

Passamos muito tempo falando que não temos tempo. Que o tempo não dá pra nada. Que precisamos de mais tempo. Como o tempo passou rápido demais… Talvez estejamos inaugurando um novo tempo. Uma era onde somos escravos e não senhores daquilo que comanda a vida de todos nós de forma implacável…

Há poucas décadas, as pessoas viviam em universos bastante reduzidos se compararmos com os dias de hoje. Mães e pais se relacionavam com vizinhos. Filhos tinham seus amigos de escola e os parceiros de aventuras da rua onde moravam. Os familiares moravam mais perto uns dos outros. Essas características transformavam um bairro em seu lugar no mundo. A conectividade entre as pessoas se dava sem intermediários, com interatividade em tempo real e à curta distância, sem a tecnologia como mediadora dessas relações. Éramos monitorados sem exageros. Utilizávamos o tempo como aliado e não como carrasco. Ir à escola, almoçar em casa, estudar, trabalhar, ir ao cinema, brincar na rua, jantar em família. Para tudo isso acontecer era necessário apenas uma coisa… tempo.

De alguma forma, nos deslumbramos pelo irresistível poder de sedução da tecnologia, a ponto de embaralharmos dois pilares da física, o espaço e tempo. Passamos muitos momentos nos perguntando em que dia estamos, quando e como fizemos tal coisa, de que forma conhecemos alguém, surpresos com o mês que já está no fim… Em que ponto nos tornamos tão displicentes e incapazes de perceber as mudanças à nossa volta? Para essa pergunta, cada um de nós tem a própria resposta, ou não.

Com o passar dos anos, ganhamos mais atribuições, mais tarefas, mais responsabilidades, o que provoca uma subtração imediata sobre o tempo nosso de todo dia. Aliado a isso, podemos incluir toda sorte de distrações oferecidas pela internet segundo a segundo. Basta uma olhadinha em seu smartphone para checar um email, que seu tempo começa a acelerar e, aquela olhada rápida, se transforma em papos como os grupos em mil aplicativos, consulta à previsão do clima, uma olhada nas curtidas daquela foto e, se você  lembrar, também vai checar o email que deu início a essa roleta russa virtual.

A conectividade é incrível e nos inclui em universos inalcançáveis até pouco tempo atrás. Mas, de uma forma muito sutil, porém muito frequente, ela também dilui as relações reais. Compensamos a famosa falta de tempo por presença virtual, o que muitas vezes faz com que relações longas, sejam mantidas de forma muito próxima e íntima, mas sem beijos e abraços de carne e osso.

Vivemos um período onde tudo é novidade e, como tudo que é novo, demoramos um pouco para achar o equilíbrio entre excessos. Não há como ignorar que o tempo ultrapassou seus limites de velocidade, mas também não podemos culpá-lo por tudo. Podemos e devemos encontrar o caminho do meio onde a vida virtual e a real sejam cúmplices e não adversárias. Onde as ausências sejam melhor administradas. Onde não seremos nem senhores nem escravos, mas sim, parceiros do nosso próprio tempo.