Fragmentos irreais

Os últimos tempos tem sido pródigos em novidades. Até aí nada de novo. A grande diferença de tudo o que foi vivido antes para o que temos agora é, sem dúvida, a velocidade com que as experiências nos alcançam. A pressa é tamanha, que quase tudo nos escapa, e não queremos mais perder nenhum detalhe. Assim, abrimos mão de sermos únicos e criamos fragmentos irreais de nós mesmos, na tola tentativa de dominar a velocidade dos novos tempos.

O tempo deixou de ser o moderador de nossas existências, para assumir o posto de observador desse grande jogo no qual vivemos onde, o ganhador, será aquele que fingir melhor ser quem jamais foi, ter estado onde sequer imaginou estar ou parecer ter aquilo que nunca teve. A ansiedade em estar em todos os lugares e com todas as pessoas, faz nascer criaturas fragmentadas que não sabem ao certo de onde partir ou aonde querem chegar. A falta de percepção sobre o que é real, nos fazem acreditar nas irrelevâncias de uma vida cada vez mais editada.

O que parece estar muito claro, mesmo que não seja percebido por todos, é a batalha interna que travamos onde, o indivíduo que somos de fato, tenta conter os cacos que insistem em se espalhar por todos os lados. E, pelo que podemos ver, os nossos pedaços tão pequenos parecem vencer essa briga com folga. Afinal, quem nunca viveu o terrível dilema que nos leva a escolher, dentre milhares de opções, as partes de nós que julgamos próximas da perfeição? Queremos oferecer o melhor de nós sempre. Mesmo que seja uma fantasia.

O volume de possibilidades de interação mudou tanto, e em tão pouco tempo, que não é mais possível saber se os novos meios de comunicação nos fragmentaram ou se nos pulverizamos para poder atingir um número maior de conexões. É uma busca quase filosófica por respostas que, de fato, pouco importam. Estamos vivendo o delírio de uma vida editada por aplicativos e filtros que prometem, além da felicidade plena, a conquista de uma perfeição, concretamente, irreal.

De fato, nos habituamos a enxergar a vida por ângulos específicos. Vemos frações de paisagens. Rostos divididos, pratos de comida, corpos moldados sob a luz correta e sorrisos constrangedoramente felizes… Todos vistos por lentes especiais cuja a finalidade é criar o imaginário da perfeição. O que, obviamente, não é possível, uma vez que o ser perfeito não passa de uma peça publicitária bem elaborada, que diz que somos capazes de alcançar esse objetivo, apesar de sabe-lo inatingível… Assim sempre que chegarmos perto do que acreditamos ser perfeito, uma nova meta é criada. O que nos obriga a construir uma nova face o tempo todo, pois, só assim, conseguiremos estar, ingenuamente, a um passo de um lugar que jamais existirá.

Essa receita foi feita para dar errado, claro. Escolher ser muitos para agradar as demandas de um mundo tão diluído, provoca um efeito dominó onde todos dizem tudo para agradar a todos e, assim, conquistam a admiração de uma plateia sempre crescente. É aí que me vem a seguinte dúvida: será que vale perder o direito as próprias escolhas, a capacidade de dizer não ou a vontade de fazer apenas o que lhe agrada, somente para viver a ilusão de que podemos ser múltiplos na arte de fingir ser quem jamais seremos? Desconfio que, encontrar essa resposta, será o nosso grande desafio, diante desse acelerado novo tempo.

Corpos cobertos de lama

Vivemos em um grande atoleiro onde, cada tentativa de andar para frente, nos afunda cada vez mais. O que seria, por si só, uma situação repleta de agonia e indignação, transformou-se em um padrão social onde a maioria, estranhamente, acostumou-se a sobreviver com seus corpos cobertos de lama. Vemos a esperança e a felicidade brilharem ao longe. Esticamos nossos braços na tentativa de poder toca-las, mas, os nossos pés presos sob a lama não permitem que sigamos adiante.

Ao mesmo tempo em que nascemos sob o signo da dificuldade, somos levados a crer que todos teremos as mesmas oportunidades, basta querer. Mentirosos muito habilidosos compram a fidelidade de quem tem muito pouco a oferecer, além de sua simplicidade. Usando artimanhas milenares que oferecem ilusões deslumbrantemente falsas, em troca de sonhos roubados de pessoas simples e repletas de esperança. Vivemos em um lugar onde a simplicidade tornou-se vítima da ignorância.

Somos subjugados por nossos pares e, principalmente, por aqueles que se julgam acima de nós. Aqueles que aprenderam a conjugar o verbo ter e esqueceram da importância do ser, distanciando-se cada vez mais do encantamento da simplicidade, banham-se na felicidade arrogante provocada pela sede de querer ter mais e mais. Essa gente ignorante, na ausência de argumentos, se vale da força para disseminar seus hábitos e sua visão de mundo. Custe o que custar. Doa a quem doer.

Vivemos em lugar onde esconder-se virou a única opção para se manter vivo. Dizer o que pensa ou ser quem se é, agora, um risco de vida. Na verdade, sempre foi. A ignorância rasa se incomoda quando a simplicidade consegue romper a força da lama que a mantém em cárcere e passa a irradiar a beleza de ser comum. Como se perpetuar em um lugar de poder, quando todos se derem conta de que, a força dos ignorantes, é forjada a partir da dor e do sofrimento dos mais simples? Já sabemos a resposta, infelizmente.

Estamos todos parados. Presos. Soterrados. A felicidade e esperança parecem distante demais para serem alcançadas pela ponta de nossos dedos. Em seus lugares, o ódio e a indiferença parecem não ter pressa de partir, colocando a todos sob seus domínios, intoxicando cada vez mais a lama que recobre as nossas peles e que nubla a nossa visão de mundo.

O mais impressionante nesta insanidade que nos arrebata, é a incapacidade de muitos em perceber o quanto estão impassíveis diante de todo mal a que são submetidos. Essa insensibilidade os faz acreditar que nada é tão ruim quanto parece. Criaturas cobertas por uma lama sufocante, disfarçada de brisa de otimismo. Mais um ponto para os calhordas que, habilmente, espalham migalhas de pão dormido e criam a esperança de conduzir essa massa faminta, a um banquete que jamais será uma realidade em suas vidas.

A lama que nos cobre não vem, apenas, de barragens negligentes. Vem da falta de oportunidades a qual fomos acostumados a conviver e atribuir aos céus a nossa falta de sorte. Não. Jamais foi por isso. Somos, sistematicamente, privados de nosso bem mais precioso: a simplicidade. Aquela que nos faz querer apenas o que é importante e que nos leva a compartilhar com quem tem menos que nós. A simplicidade é a força capaz de anular a resistência que mantém nossos pés presos essa lama tóxica e perversa. A simplicidade nos dá a liberdade de escolher apenas aquilo que vale a pena viver. E nada é tão assustador para os ignorantes abastados, quanto a possibilidade de ver o poder do ser simples.

Jogo de gato e rato

Todos os dias perdemos algo que nos é caro, importante ou essencial. Fazemos escolhas inconsistentes acreditando que elas nos levarão a certezas concretas, mas, o que percebemos é que existem muitas variáveis entre esse meio e fim. Mas, até aí está tudo certo. Nossas escolhas sempre implicarão em perdas que fazem parte de um jogo de gato e rato que será presença constante em nossas vidas. O problema é quando a nossa realidade nos impede de fazer as próprias escolhas, sejam elas quais forem.

A conectividade ilimitada acelerou viagens, encurtou distâncias e criou pontes para todos os lados. Aumentando, assim, a sensação de que a nossa capacidade de fazer escolhas é, também, sem limites. Até seria, não fosse o simples fato de não estarmos sozinhos nesse mundo. Mundo esse que pensa cada vez mais igual, massacrando cada vez mais a diferenças, em prol de uma padronização de comportamentos, potencializada pela suposta facilidade que temos em fazer escolhas. Que grande cilada.

Somos levados a crer nesta fala que diz que podemos conquistar tudo, quando quisermos e o quanto aguentarmos. Mas, na prática, o que percebemos é exatamente o contrário. Diante de um cenário de múltiplas possibilidades, fica cada vez menor, a nossa capacidade de decidir o que é melhor para nós. Nos atrapalhamos entre tantas saídas e atalhos, que fingem nos levar para onde quisermos, mas, que no fim, nos mantém exatamente no mesmo lugar. Esse mundo pretensamente grandioso nos ilude com ofertas de escolhas vitoriosas, que não passam de derrotas disfarçadas.

Enquanto entramos nessa grande roda de hamster, perdemos de vista que nossos desejos não são suficientes para garantir que nossas escolhas sejam sempre acertadas. Estamos envoltos por muitas camadas que, propositalmente, nos distraem e distanciam daquilo que queremos. Perdemos horas de sono sem razão. Perdemos encontros importantes porque não temos tempo. Deixamos de vislumbrar a vida real por estarmos vidrados em telas brilhantes. Amores são perdidos por não sabermos reconhece-los. Quem disse que nossas escolhas só trazem ganhos?

A realidade em que vivemos traz pitadas de um surrealismo tão cínico quanto perverso. Pessoas saem de casa e por razões absolutamente descabidas, não conseguem retornar. A violência é a grande expressão disso. O desejo desenfreado por ter, faz com que deixemos de perceber que não é necessário querer tudo. Quando todos desejamos mais do que podemos ter, fatalmente esbarraremos na vontade do outro, gerando conflitos que criam uma grande deformação social que nos engole a todos e nos tira, sem pudores, tudo aquilo que nos é caro, importante ou essencial.

Se a vida é de fato um grande jogo, perder ou ganhar são efeitos mais que esperados. Esse equilíbrio de forças só é possível enquanto formos donos do nosso direito de escolha, seja para ganhar ou para perder, desde que seja uma decisão nossa. Querer abraçar todas as chances possíveis para, no fim, acumular êxitos, não é apenas uma ilusão, é a certeza de que o descontrole sobre as escolhas que o mundo nos oferece pode, e vai, nos fazer perder mais do que poderíamos imaginar.

Todo mundo tem algo a dizer

Dia desses, após passar algumas horas em um debate acalorado sobre assuntos descartáveis, percebi que estamos vivendo a era onde todo mundo tem algo a dizer, sobre todos os assuntos do mundo. Até aí tudo certo, uma vez que opinar é, de forma geral, uma maneira de ouvir colocações, sejam elas discordantes ou não. Mas, o que tem chamado atenção, de forma assustadora, é a capacidade ilimitada que alguns têm de falar muito, sobre assuntos com os quais jamais tiveram qualquer intimidade.

Somos parte de uma época onde, ao mesmo tempo que supervalorizamos a fala, esquecemos de sua cara metade: a escuta. E, em um cenário onde todos falam e ninguém se ouve, cria-se um campo fértil para toda a sorte de distorções e ruídos numa comunicação já precária. A ausência de uma escuta, nos obriga, não apenas, a aumentar o volume de nossas falas, mas, também, a falar sobre o que quer que seja. Assim, passamos a berrar opiniões inconsistentes aos quatro ventos, na tentativa de conquistar ouvintes disponíveis. O problema é quando decidem nos ouvir, justamente, quando não temos nada valioso a dizer.

O direito de se expressar não é democrático como parece, infelizmente. Há um número enorme de pessoas sem voz espalhadas por aí, esperando uma única chance para serem ouvidas. Chance que, muitas vezes, nunca chega. Em contrapartida, percebemos uma minoria formada pelos mesmos personagens, que parecem ter acesso irrestrito a expressão de sua voz e, por isso, são capazes de influenciar amplamente, todos aqueles que, cansados de gritar, decidem seguir o que lhes é dito. Opiniões padronizadas e pasteurizadas distribuídas sem moderação.

Talvez esta seja uma das razões que nos empurrem para tribunas imaginárias em busca de um lugar de fala. Lugar de fala. Expressão nova que traz significados que vão muito além da sua aparente simplicidade. Ter um lugar para expressar suas vivências, seus dramas e conquistas com propriedade, é fruto desse movimento que busca ouvidos interessados em ir além dos discursos encomendados e das frases feitas, utilizadas por quem tem a pretensão de acreditar que pode falar sobre tudo e para todos. Não. Isso não é possível.

Hoje, um mundo de possibilidades permite o embate entre os que precisam ser ouvidos e os que sempre tiveram voz. O que é interessante por si só, uma vez que a transferência de pontos de vista busca, em teoria, um entendimento maior sobre as questões que nos cercam. Pena que isso é tudo o que não temos. Os lugares de fala são minimizados, sempre que seus representantes legítimos tentam se fazer ouvir. Agonias sufocadas quando vem à tona, desconcertam e desconstroem aqueles que fizeram de tudo para mantê-las longe dos holofotes.

Em tempos onde muitos falam e poucos escutam, a desesperança se instala de forma tão confortável, que nos impede de ver saídas que retomem o caminho do diálogo. Apesar de ser uma tarefa nada fácil, ela é, sim, possível. Para entender o que são os lugares de fala, é preciso resgatar velhos ensinamentos. Colocar-se no lugar do outro, não fazer com alguém o que não gostaria que fizessem com você, respeitar as opiniões diferentes da sua e ter, sobretudo, mais amor para compartilhar. Ingredientes simples que estruturam um dos maiores tesouros que podemos partilhar nessa vida: a empatia. A única capaz de mostrar que todos temos que respeitar, em doses iguais, o direito de falar sobre o que nos movimenta e o dever de ouvir sobre as dores e os amores do outro.

Cortinas de fumaça

O que não querem que vejamos? O que está por trás daquilo que é dito apenas para confundir? Nos fazemos estas perguntas o tempo todo, o que é um claro sinal de que sofremos tentativas de engano tão frequentes, que já incorporamos ao nosso dia a dia a ideia de termos um algoz a nossa espreita. Criaturas prontas para criar cortinas de fumaça que desviam a nossa atenção para o que de fato importa. Um truque quase perfeito. Quase…

O que ouvimos hoje, de pessoas que jamais deveriam prestar desserviços sociais, não nasceu agora. Aprendemos desde muito cedo a ludibriar a verdade, transformando caminhos retos, em curvas confusas que irão, supostamente, suavizar a caminhada. Com essa primeira lição, fica claro que a verdade é algo direto, duro e, por vezes, doloroso demais para encarar. Talvez isso explique a nossa predileção por mentirinhas suaves, utilizadas sempre que for preciso amortecer o peso da verdade.

Entramos em contato com um mundo encoberto por uma névoa densa ainda na infância. Sob o pretexto de desviar dos olhares infantis, tudo aquilo que acreditamos ser mal e, dessa forma, assegurar a pureza das crianças. Exemplos clássicos podem ajudar a entender isso. Quando arrumamos nossos filhos, criando neles a esperança de um passeio agradável quando, na verdade, é uma dolorosa vacina que os espera. Ou, quando juramos a eles que compraremos aquele brinquedo na volta. Isso, sem falar dos medos que plantamos em seus corações, com o pretexto de protege-los das maldades do mundo. Desvios de atenção nascidos na boa fé, que podem se transformar em grandes armadilhas.

Por que a verdade é tão temida, a ponto de criarmos tantas artimanhas para alterar a sua verdadeira forma? Podemos fingir que não, mas, lá no fundo, todos sabemos a resposta. Fomos criados sob a ilusão de que caminhos tortuosos, apesar de longos e confusos, trazem algum conforto. Já, a verdade, só conhece retas duras, que não se dobram a nossa vontade. Talvez por isso seja atribuída a ela, adjetivos que rimam mais com dor do que com amor. Afinal, algo nu e cru, com pernas curtas e que provoca dor quando se apresenta, não deve ser uma coisa tão boa assim…

E, com base neste julgamento para lá de equivocado, nos habituamos a confundir verdades incontestáveis com mentiras sinceras. Criando, assim, um híbrido entre o certo e o errado que se fortalece continuamente, até tornar-se um só. É neste ponto onde névoas suaves transformam-se em densas cortinas de fumaça que tem como missão principal, fazer com que acreditemos nas distorções que mostram partes de um todo, mas, jamais, a imagem original. Atenção redobrada, pois, a negação da verdade, seja intencional ou não, nos leva a criar atalhos que, ao invés de facilitar trajetórias, nos empurram, de forma irreversível, para abismos repletos de mentiras.

Aqui pensando, o livro

Ao acordar e ler esse texto neste domingo eu, certamente, estarei entorpecido por uma sensação que levará tempo para digerir. A noite que antecedeu essa manhã, abrigou momentos indescritíveis que personificaram anseios e transformaram sonhos na mais bela expressão de realidade. Ideias, pensamentos e memórias inquietas que um dia provocavam desconforto, rolaram da cabeça à ponta dos dedos, até alcançarem folhas em branco, onde marcaram com tintas fortes, tudo aquilo que desejavam dizer. E, assim, depois de muito observar a vida e seus ciclos, nasce o aqui pensando, o livro.

Isso pode parecer um ensaio de futurologia, mas é, na verdade, a antecipação de um momento há tempos aguardado e que ficou perdido pelas caixas de passado que acumulamos com o passar do tempo. As surpresas que a vida proporciona, por vezes transformam ações inesperadas em sonhos possíveis, que nos levam a lugares completamente diferentes da nossa programação cotidiana. O que ajuda a compreender que o mundo nunca é o mesmo como muitos preferem acreditar.

Realizar sonhos parece algo pueril e que já é assunto batido em filmes e desenhos onde, de forma romântica e afetada, os personagens buscam a felicidade envoltos por uma trilha sonora encantadora. Na vida real, sonhos fazem parte de uma construção a partir do olhar que nos mostra que o surpreendente mora nos detalhes, e que é, a partir deles, que chegaremos exatamente onde quisermos. Porém, essa vida de gente grande que não conhece limites e prima pela impaciência, impedindo que enxerguemos muito além de nossas medidas.

Mas, posso ser sincero? Grande parte das frustrações que colecionamos não são causadas por sonhos não realizados. Nossas dores falam muito mais sobre influências e escolhas que tivemos ao longo do processo. Realizar é um verbo onde tudo cabe, sobretudo o medo. Quem de nós nunca se sentiu paralisado diante da possibilidade de um acontecimento e se perguntou “qual foi o dia que me tornei medroso?”. Uma indagação praticamente cotidiana, mas que, infelizmente, é responsável pela ruína de sonhos sequer sonhados. Esta dúvida nos direciona para o que talvez seja o nosso grande desafio na vida: a difícil arte da escolha.

Algo muito comum em dias, onde a felicidade tornou-se uma unidade de medida virtual e as selfie vão muito além do autorretrato de quem somos de fato, viver a realização do outro transformou-se, de forma perversa, numa nova forma de sonhar. Enxergar a própria vida e seus anseios com um olhar estrangeiro, provoca uma incompatibilidade entre o que queremos, o que podemos e onde pretendemos chegar. Talvez a volatilidade das relações atuais tenha sua grande parcela de culpa, nos fazendo acreditar em um mundo irrealmente belo, mas, basta um olha mais apurado para perceber que nem tudo que reluz é ouro.

Mesmo que ainda não se saiba onde se quer chegar, é inegável que não se parte de lugar algum, sem o estímulo de um sonho. Alcançar nossos objetos de desejo é um processo complexo com começo, meio e fim. Tentar subverter essa ordem é, além de arriscado, a fonte de grande parte das nossas crises particulares. A forma como planejamos as nossas realizações mudam constantemente, mas o que precisa ser mantido, de forma inegociável, é a certeza de que, para transformar sonhos em realidade, é preciso preservar a admiração que vive em nós.

Feliz novo ano!

O renascer das luzes

O natal chegou! Todo ano ele chega trazendo promessas, trocas de presentes, desejos de felicidade futura e compromissos voláteis com a pessoa que queremos ser no próximo ano. Daí, chega o próximo ano e toda aquela empolgação que arrebata a todos, transforma-se, em poucos dias, em uma lembrança esmaecida. É estranho perceber que, em tão pouco tempo, o renascer das luzes da esperança, dá lugar a uma indiferença cativa, com a qual aprendemos a conviver cada vez mais.

Voltando ao espírito natalino, não há como passar incólume por dezembro e suas luzes que piscam, brilham e ofuscam os olhares de quem as observa. As luzes de dezembro vão muito além da simples proposta de iluminar casas, árvores de plástico ou vitrines. A proximidade do natal cria uma atmosfera muito particular, que permite a abertura de portas que teimam em se manter fechadas ao longo do ano. As luzes que piscam sem parar são, na verdade, chaves que nos ajudam a destravar os cadeados fechados por nós mesmos.

Nos acostumamos a pisar no acelerador de nossas vidas e só percebemos o tempo, no momento em que o ciclo anual chega ao seu fim. Seja porque estamos de férias, seja porque recebemos mensagens felizes de onde menos se espera. Esta é a época onde decidimos trocar olhares, conversar longamente e sorrir junto com aqueles com quem dividimos nossos espaços e que, muitas vezes, sequer sabemos seus nomes. Reflexos da indiferença nossa de cada dia.

Mas, basta enxergar o piscar de pequenas luzes, para entender que é o momento de acalmar a rotina e voltar a perceber que tudo o que construímos é fruto de uma obra coletiva. Mesmo que, por vezes, acreditemos que somos os únicos responsáveis por nossas conquistas. E é aí que, quase como um passe de mágica, voltamos a enxergar o poder da coletividade. O brilho que se espalha nessa época ajuda a iluminar as relações e nos faz mudar de alguma forma. Alguns compram presentes, outros escrevem cartões e ainda há aqueles que investem seu escasso tempo em prol de outro. É dezembro nos mostrando que a caminhada é muito melhor quando é compartilhada.

Estas luzes que iluminam nossos corredores internos, mostram saídas escondidas, que sempre estiveram próximas, mas que, por omissão ou esquecimento, não eram vistas. Atalhos que nos conectam ao outro, seja ela conhecido ou não. O brilho de dezembro vai muito além da decoração natalina. Ele nos lembra que também possuímos uma luz potente, capaz de iluminar o mundo e as pessoas à nossa volta. Uma luz tão especial e intensa, que se funde com tantas outras, criando um belo mosaico onde ninguém fica no escuro.

Resgatar essa luz interior é, possivelmente, o grande presente para o fim de um ciclo. Natal é época de olhar para quem amamos, é tempo de ajudar a quem precisa e é hora de entender que precisamos ser muitos, para sermos um só. As luzes da esperança não podem ser confundidas com pisca-pisca de belas vitrines. Estas servem apenas para lembrar que é chegado o momento de trazermos de volta a luz que mora em cada um de nós e que, de tão intensa, nos faz acreditar que podemos ser melhores o ano todo. Talvez este seja o real significado do natal, lembrar que, apesar das dificuldades, devemos manter nossas luzes, permanentemente, acesas.

Universo de falsas importâncias

Qual foi a última vez que você escolheu não ser o centro das atenções? Ou, há quanto tempo não se permite olhar a sua volta e perceber os detalhes da vida, especialmente se não for a sua própria? Já se perguntou se tudo aquilo que lhe aflige é, de fato, um problema tão grande assim? Essas perguntas agem como o prenúncio de uma autoanálise que costuma ser feita de tempos em tempos, e que tem a presunção de explicar esse universo de falsas importâncias…

De cara, esse assunto parece conter traços de religiosidade ou da busca pelo bem romantizado e intocável, que diz que devemos nos doar, não importa a situação. Mas não é nada disso. Pensar na importância que supostamente temos em nossos mundos é, completamente diferente, de vestir uma capa de importância que, arrogantemente, escolhemos como peça importante do nosso figurino social. Saber-se importante não tem qualquer relação com acreditar-se como tal.

Em tempos onde fakes parecem não conhecer limites, tornou-se simples atribuir importância ao que não tem. As mídias sociais deram retoques aos supérfluos do cotidiano, transformando o que era ordinário em essencial. Com isso, uma avalanche de bobagens passou a ser vista como algo prioritário. O que nos desorienta quando é necessário diferenciar um drama midiático de uma dificuldade verdadeira. Tudo passa a ser problema quando nos achamos, demasiadamente, importantes.

Então, sé é uma realidade o fato de estarmos, cada vez mais, banalizando relevâncias e enaltecendo desimportâncias, como é possível perceber o que é realmente essencial para nós? É claro que todos terão uma opinião baseada em suas experiências, mas a minha questão é: o que é genuinamente importante nesta vida? Família, amigos, trabalho e amores, certamente fazem parte do hall de coisas mais importantes em nossos universos particulares. Mas, será que estamos expressando, verdadeiramente, o quanto tudo isso é valioso?

Viver na superficialidade é algo muito fácil. A glamourização do comum atrai muito mais olhares do que demonstração real de afeto. Vemos pessoas protestando ativamente em prol de causas humanitárias e sociais em um universo que só existe dentro de uma tela, enquanto desejam toda a sorte de maus agouros. de forma indiscriminada e perversa. a todos que cruzam seus caminhos. Pessoas que super dimensionam as próprias questões, deixando claro que seus problemas sempre serão mais importantes e mais urgentes que os do resto da humanidade.

Acreditar nisso é uma grande perda de tempo. Todos passamos por situações boas e ruins o tempo todo. Superestima-las só ajuda a criar problemas imaginários, próprios de quem se julga excessivamente importante. Mas, é muito simples desconstruir essa irrealidade. Basta mirar as pessoas de forma mais direta e mais humana, sem defesas, julgamentos prévios ou arrogância. O que facilita a retiradas dos véus que nublam a nossa percepção do mundo, nos obrigando a ver as coisas como são. E como sempre foram.

Possivelmente avançaremos nesse autodeslumbramento que nos faz ignorar o que é de verdade, para valorizar coisas nem tão importantes assim. Mas, sem dúvida, esse movimento vai desacelerar e passaremos a sentir falta do toque, do olhar, da troca e, principalmente, da sensibilidade que nos salva da arrogância burra e nos permite perceber que problemas são criados a partir de experiências reais e, jamais, de tolices que resolvemos supervalorizar, na busca por um lugar ao sol neste vasto universo das falsas importâncias.

O avanço do tempo

Envelhecer. Este termo por si só, é capaz de provocar as mais diversas reações em quem, com ele, se identificar. Sensações que misturam resistência, horror e resignação tornam-se, rapidamente, cárceres de onde só é possível ver o que há de pior naquilo que nos acompanha desde o dia em que nascemos. Vamos envelhecer. Estamos envelhecendo. Quanto a isso não há muito o que fazer a não ser aceitar que, o avanço do tempo, pode ser muito mais legal do que querem nos fazer crer.

Ficar velho é um fato inconteste e, a partir do momento em que isto se torna uma aceitação e não uma batalha, um novo mundo se abre diante de nossos olhos. Para as crianças, por exemplo, o tempo não existe. A energia infinita aliada ao indomado ímpeto infantil, talvez sejam as únicas ferramentas, poderosas o bastante, para desafiar o tempo. São os adultos que, pouco a pouco, mostram aos pequenos que somos todos regidos por um grande ciclo de desenvolvimento imutável, que inclui: nascer, crescer, reproduzir e morrer.

Esse ciclo biológico pode até cumprir o seu papel nos livros de ciências, mas, na vida real, não há garantias de que essa sequência será obedecida. Destas etapas, apenas nascer e morrer são inegociáveis. Afora isso, não temos o menor controle sobre quando e como organizaremos o nosso crescimento. E, neste caso, crescer vai muito além do que tornar-se uma grande massa de células. O crescimento pede experimentação. Dificilmente, seremos capazes de descrever sensações sem, de fato, senti-las. Dificilmente, criaremos cascas sem a experiência da queda. E quedas que só existem porque foi necessário saltar antes.

Envelhecer é um acumulado de pequenas cascas, capas ou camadas, que se formam de acordo com a nossa disposição para saltar no escuro, na tentativa de alcançar algo que sequer conhecemos. Uns podem chamar isso de experiência, outros de inconsequência, mas, ambos concordariam que, os degraus que galgamos, além de abrirem caminhos rumo ao desconhecido, também permitem que deixemos nossas pegadas cravadas por onde passamos. Marcas que são testemunhas de uma história construída um dia após o outro, salto por salto, queda por queda.

Olhar-se no espelho é, de fato, algo desagradável quando a figura que buscamos é aquela que não mais existe. Fitar a face refletida aos trinta, quarenta ou setenta e, ingenuamente, esperar ver a mesma imagem da década anterior é, absolutamente inútil. Passar a vida olhando-se no espelho, com a certeza de que sempre verá a mesma imagem, é o mesmo que marcar um encontro com quem não existe mais. Não percebemos a passagem do tempo até que ele, de fato, passe.

Ser parceiro do tempo significa aceitar que os joelhos irão doer, que o colágeno irá nos abandonar e que o fôlego não será mais o mesmo. Falhas normais para uma máquina sempre em movimento. Mas, em contrapartida, é necessário perceber que o tempo não está aí apenas para levar o nosso viço consigo. As vivências ao longo da vida preenchem muito mais do que esvaziam.

O que nos permite observar o mundo com suas cores reais, apesar de enxergarmos menos. A experiência nos torna capazes de sentir o que há de verdadeiro em quem nos cerca, de forma simples e sem dramas. Como é possível chegar a esse ponto? Basta desistir da batalha inglória, e perdida, contra os anos que insistem em seguir em frente. O que devemos fazer é caminhar em paz, desfrutar a viagem e aproveitar tudo aquilo que só o passar do tempo tem a nos oferecer.

Carrossel de emoções

Vivemos bombardeados por uma quantidade tão absurda de influências, que fica difícil entender o que, de fato, acontece conosco. Ao longo de um único dia, é possível sorrir, entristecer, irritar-se, perder esperanças para, logo em seguida, encontra-las novamente. Um carrossel de emoções tão complexo e, ao mesmo tempo, tão disponível, que não nos deixa muitas escolhas, a não ser vivê-lo. Estar cercado de tantas sensações ao mesmo tempo, faz com que pequenos sentimentos passem desapercebidos. Perdemos os detalhes do cotidiano por conseguir enxergar, apenas, aquilo que salta aos olhos.

Pode não ser uma opinião unânime, mas, desenvolvemos dia após dia, uma miopia acerca das emoções que sentimos, que torna difícil reagir, em tempo real a tudo que nos afeta. Muitas vezes esquecemos de algo que ouvimos outro dia. Mas, ao acordamos no dia seguinte, lembramos da situação, que, só agora, ficou nítida o suficiente para despertar uma reação nossa. Vivemos em um eterno delay emocional.

Efeitos retardados são comuns quando se trata de emoções. Por vezes somos maltratados e, ao invés de respondermos imediatamente, seguimos em frente como se nada tivesse acontecido. Porém, cedo ou tarde, lembraremos do fato, com a indignação certa, só que na hora errada. A frequência desses lapsos é tamanha, que torna difícil saber se estamos reagindo ao agora ou se estamos um degrau abaixo na expressão das nossas reações. Isso me faz pensar se estamos, de fato, inteiros nas relações ou nos pulverizando, na tentativa de alcançar um volume maior de interações dia após dia.

Independentemente da resposta, uma coisa é certa – estamos perdidos. Difíceis são esses novos tempos onde tudo a nossa volta parece correr mais rápido que a nossa capacidade de percepção. Trabalhamos demais, ganhamos de menos, vivemos entre o mundo virtual que cobra felicidade, e o real que pede mais atenção. Somos muitos quando deveríamos ser, simplesmente, únicos. Criamos a ilusão de que nada passa aos nossos sentidos, mas, a verdade é que, quase tudo nos escapa.

Esse contato direto com mil emoções, faz com que acreditemos que vivemos tudo ao extremo, apesar de sabermos muito pouco sobre o que nos cerca. Conhecemos alguém agora e, no segundo seguinte, juramos amor eterno. Achamos alguém interessante e, em pouco tempo, já utilizamos mil adjetivos, como se fossem adereços, para classificar quem mal conhecemos. E, assim, seguimos banalizando sentimentos e subestimando a nossa capacidade de sentir verdadeiramente. É como se puxássemos linhas que trazem emoções fugazes, porém, impressionantemente descartáveis.

Viver em um carrossel de emoções não é uma escolha e, sim, uma imposição do mundo que habitamos. Mas é possível minimizar seus efeitos, desafiando a velocidade que o tempo nos impõe. Desacelerar é o verbo que devemos conjugar em quantas pessoas conseguirmos e, dessa forma, garantir um folego maior, que nos permitirá olhar novamente ao nosso redor e, enfim, captar cores e texturas das formas que passamos a enxergar parcialmente. Enxergar o mundo fracionado passou a ser o suficiente, nesta nova ordem que parece não ter muito apreço pela paciência.

Vivemos os reflexos de um tempo, onde, o tempo, é tudo o que não temos. O que me faz acreditar que estamos diante de uma difícil escolha: queremos o raso em excesso ou a riqueza dos detalhes que só a calma é capaz de oferecer? Talvez não exista uma escolha única, mas, não há como negar que usufruir a plenitude de momentos bem vividos não pode, jamais, ser substituída pela pressa de viver experiências que serão esquecidas, antes mesmo de serem lembradas.