Dias de folia

Folia. Muitas são as definições relacionadas e essa palavra, mas me chamou a atenção aquela que diz que a folia é uma antiga dança portuguesa, bem animada, acompanhada por cantos e pandeiros e executada por homens vestidos de mulher. Isso ajuda a entender muitas coisas.

Ah, o carnaval! Época esperada por muitos, tolerada por uns e execrada por outros tantos. Independente do seu amor ou ódio pelos dias de folia, é inegável a transformação coletiva observada ao longo destes quatro dias e, não se engane, mesmo que não seja um folião profissional, seus hábitos e certezas sempre mudarão durante as festas de momo.

Mas, se você é um folião inveterado, daqueles que programam com antecedência para onde ir, o que fazer e quais serão as fantasias da vez, este é, sem dúvidas, o melhor momento do ano. É hora de festejar e colocar para fora angústias e frustrações como se o mundo tivesse uma data de validade de apenas quatro dias… Isso pode ser bem perigoso.

Quais serão os motivos que nos levam a reprimir desejos e vontades por tanto tempo? Provavelmente não teremos uma resposta elaborada capaz de atender a essa pergunta, mas seguimos acompanhados de uma certeza: O carnaval vai chegar! E vai trazer as chaves que libertam todas as feras que deixamos adormecidas por meses em nossas caixas de pandora e que, apenas agora, liberamos seu acesso ao mundo, sem maiores restrições, ou quase isso.

Há quem diga que é um período de excessos. Não discordo. Tudo no carnaval é superlativo. Brincamos demais, bebemos demais, amamos repetidas vezes e experimentamos uma felicidade em estado bruto, livre das amarras morais que o cotidiano nos impõe.

Isto significa dizer que estamos livres para explodir toda a irresponsabilidade e inconsequência que mora em nós, durante a folia? Longe disso. Diversão é um ritmo que necessita de parceiros para que a dança seja bem executada e errar o passo, pode, quase sempre, pôr a perder toda a expectativa de felicidade, acalentada por meses a fio. Exageros podem, infelizmente, levar a excessos que destoam do espírito da festa.

Para muitos, o carnaval serve como refúgio silencioso, mas isso não é menos transformador. Mesmo que a escolha seja ficar em casa assistindo aos festejos pela televisão, algum sentimento será despertado pelas imagens que são vistas. A admiração pela beleza das fantasias, a alegria provocada pela irreverência dos foliões ou a vergonha alheia causada pela falta de figurino de alguns. Não importa o que se sente, mas como se sente. Os dias de folia chegam, alteram a nossa rotina e podem nos presentear com prazer e cansaço ou com reflexão e relaxamento, afinal, poucas datas são tão democráticas quanto a festa pagã.

O carnaval estará sempre presente nossas vidas. Para muitos, essa data traz liberdade para ser quem se é de verdade e permite que sejam retiradas as pesadas máscaras que carregam o ano todo, deixando à mostra suas alegorias reais, sem adereços. É por isso que, para muitas pessoas, as fantasias escolhidas para o carnaval são, de fato, as suas verdadeiras personas.

O carnaval existe para ser apreciado por todos os nossos sentidos, o que não significa que não devemos refletir sobre todas ilusões e armadilhas que ele nos oferece e, acima de tudo, não podemos ignorar os efeitos que todos nós, em algum grau, sentimos diante deste impressionante espetáculo.

As fantasias podem nos revelar, esconder ou projetar quem gostaríamos de ser. Isso é compartilhado por milhões de pessoas durante frenéticos quatro dias. Talvez esteja aí a grande força desta festa. Todos unidos pelo desejo de mostrar ao mundo, aquilo que mantém escondido e que poucos conhecem e, à medida que todos dividem o mesmo sonho, não há julgamento, não há culpa. Há folia! Bom carnaval a todos!

Vivendo fora da caixa

Quando eu crescer, quero morar sozinho. Adoro festas onde só tem gente bonita. Preciso de um carro só para mim. Quero ser amigo das pessoas mais populares e interessantes…

Nossa mente, vez ou outra, é visitada por estes pensamentos que projetam uma vontade quase irresistível de inclusão em algum tipo de padrão. Buscamos, com afinco, cenário e personagens que julgamos adequados e que trazem algum sentido a nossa existência. Isso significa que precisamos eleger um grupo para chamar de nosso. Será?

Ao mesmo tempo que queremos pertencer a alguma tribo, não nos agrada a ideia de sermos mais um na multidão, dessa forma, começamos a percorrer um caminho que nos mostra que também somos únicos, apesar da massa a nossa volta.

Quando crianças, vivemos sempre cercados pela família, amigos da escola, do bairro e isso ajuda a desenvolver, em algum grau, o ser social e coletivo que somos. À medida que crescemos, passamos a pensar e agir em bandos que quase sempre reúnem integrantes com características muito próximas e, assim, criamos um modelo de interação com o mundo que irá se repetir incontáveis vezes. Um formato que nos direciona na maioria das vezes, para os mesmos lugares, as mesmas pessoas e situações em fases diferentes da vida.

Que mal há nisso, uma vez que é agradável estar com nossos pares, que pensam e agem como nós? Independente da resposta, uma coisa é certa, estar sempre voltado para a mesma paisagem, exclui a possibilidade de interagir, sem restrições, com o ambiente que nos cerca.

À medida que desejamos um mundo mais exclusivo e que atenda aos nossos anseios, acabamos por criar alguns labirintos onde conhecemos a entrada, mas apenas imaginamos como será a saída. Passamos repetidas vezes por situações semelhantes que, no fim, não somos mais capazes de distinguir se vivenciamos algo novo ou apenas mais do mesmo. Isso provoca um efeito adverso muito comum quando vivemos sempre no mesmo quadrado. Passamos a desejar aquilo que está do lado de fora do nosso limite imaginário.

Uma vez que seguimos por essa estrada, criamos códigos muito pessoais que podem, com alguma frequência, nos isolar, já que não nos permitimos novas experiências em áreas distantes de nossa zona de conforto. Eliminamos grandes chances de aprendizado por não saber como lidar com situações que extrapolam as fronteiras que levamos anos para criar, sem saber muito bem o porquê.

Quando amadurecemos, passamos a perceber que organizamos pessoas e momentos em caixas iguais, mas com tamanhos distintos, criando barreiras sobrepostas que dificultam a chegada de qualquer coisa que não seja compatível com o nosso belo, exclusivo e monocromático mosaico de caixas empilhadas. E isso pode, com alguma intensidade, nos empobrecer, limitar, isolar e emburrecer. Criando um terreno fértil para a ignorância, toda sorte de preconceitos e solidão.

Em algum ponto da nossa jornada iremos, certamente, olhar com cuidado para a pessoa que fomos, para a pessoa que nos tornamos e para quem queremos ser. Para isso, é preciso transpor nossos próprios obstáculos e, assim, perceber que os sonhos de individualidade podem até nos satisfazer por um tempo, mas nunca o tempo todo.

Olhar para trás nos permite mirar a criança que fomos e lembrar que vivíamos rodeados por pessoas diferentes na forma e no conteúdo. Essas memórias ajudam a constatar que as barreiras que criamos nos limitam e que, quanto mais amplas forem as nossas fronteiras, corremos sérios riscos de nos tornarmos mais diversos, mais completos e mais felizes.

O amor e seus parceiros

O amor é plural. Independente do que cada um de nós pensa sobre o amor, uma coisa não se pode ignorar, ele sempre vem acompanhado de outros tantos sentimentos e sensações que, muitas vezes, fica difícil definir o seu verdadeiro significado. Talvez por isso, estejamos sempre relacionando esse sentimento a sujeitos diferentes. Amor de mãe, de irmão, de amigo… Assim, dependendo de quem se ama, conseguimos orbitar emoções diferentes e complementares, que conferem exclusividade para cada relação que criamos vida a fora.

As parcerias do amor variam de acordo com nosso momento, experiências, disponibilidade para possíveis desilusões e vontade de dividir espaços. Muitas são as variáveis dessa equação maluca que, normalmente, nos achamos capazes de resolver sempre que nos deparamos com ela, porém, à medida que o tempo passa, chegamos a centenas de resultados finais e que nunca batem com o nosso, ingênuo e idealizado, gabarito original.

Costumamos entender melhor essa questão quando pensamos nos grupos sociais ao nosso redor. A família, por exemplo, sempre será a maior referência de quando se trata de amor sólido e que, mesmo turbulento, é capaz de se perpetuar para sempre. Talvez isso seja possível por que, dentre todas as relações que teremos na vida, é a partir de nossos familiares que conhecemos o amor em forma bruta, plena e poderosa como uma força da natureza.

É na família onde temos mais tempo para lapidar o amor, permitindo que nossas emoções se aproximem dele, criando parcerias inesperadas que constroem, de forma muito particular e com vínculos muito fortes, as nossas relações familiares.

Muitos dizem que os amigos são a família que escolhemos. Concordo. Amizade também é uma construção, mas neste caso, o amor não é o primeiro elemento a chegar. Os parceiros como confiança e empatia, estabelecem um terreno seguro para a chegada do amor que, uma vez estabelecido, nunca abandona o seu posto.

A maioria de nós tem aquele amigo querido que, por circunstâncias alheias a nossa vontade, não conseguimos desfrutar de sua companhia frequentemente. Entretanto, independente desse lapso temporal, ao encontrar-los, sentimos uma torrente de felicidade que chega para anunciar que o amor continua lá, indiferente a passagem do tempo.

Então, isso significa que amaremos todos aqueles que encontrarmos pela frente? De forma alguma. O amor também se cerca de emoções que dificultam sua chegada, por vezes de forma permanente. Dificilmente amaremos alguém se os parceiros antipatia e rejeição forem os responsáveis pelos primeiros contatos. Isso ajuda a criar um controle de qualidade que filtra, naturalmente, os tipos de relacionamentos que teremos do início ao fim da vida. Ainda bem!

Se as relações são forjadas a partir da interação entre o amor e seus parceiros, por que será que temos tanta dificuldade em compreender isso, quando se trata de outras maneiras de amar? Pode facilitar o entendimento, se compararmos com a forma como construímos outros tipos de relações.

Quando conhecemos alguém, sentimos um misto de emoções que podem, ou não, conduzir a uma grande história de amor. Mas nesse caso em particular, diferente do caminho que usamos para construir outras relações, o amor e todas as outras emoções se misturam em altas doses, de forma aleatória e imprevisível. O resultado disso pode, muitas vezes, determinar os rumos dessa história. Leve, divertida, intensa, possessiva, indiferente ou carregada de cobranças. No momento em que as relações criam-se rapidamente e as emoções se fundem ao acaso, é dificílimo perceber quando amamos de fato, quando não temos tanta certeza disso, ou ainda, quando sabemos que o amor se foi, mas as demais emoções juntas, criaram laços quase indissolúveis.

De modo geral, acreditamos que só o amor nos traz a plenitude. Amar sem parceiros é apenas um conceito. Amar traz consigo o sorrir, dançar, chorar, sofrer, doar, comprometer e uma infinidade de sensações que, em conjunto, o tornam sublime. Por isso, se deixarmos seus parceiros de lado, o amor uma vez sentido, pode se transformar em amor ressentido e deixar, para sempre, de fazer sentido.

Mosaico de nós mesmos

Vivemos tempos superlativos. Amamos demais, choramos demais, somos super felizes, odiamos intensamente e nos compadecemos pouquíssimo pela dor do outro. Não é necessário passar muito tempo próximo a alguém para que nossas emoções aflorem em grau máximo.

Talvez possa parecer exagerado afirmar isso, mas é inegável que há algo de inusitado e desconcertante nas relações dos tempos modernos. Seja no trabalho, no amor, ou até mesmo em um desentendimento no trânsito, estamos sempre prontos, inteiros e cheios de razão sobre alguma coisa. Pelo menos tentamos demonstrar que sim…

Mas como isso é possível? Simples. Uma vez que assumimos que falta tempo para nos dedicarmos às relações, criamos tipos prontos e pré-moldados que mostram sempre o melhor que há em nós. Profissionalmente, usamos o personagem eficientíssimo e proativo, disposto a resolver questões com a competência de um super funcionário.

Quando nos aventuramos em um relacionamento, seguimos um roteiro prévio que nos diz o que, quando e como agir. Demonstramos ao outro o quanto somos incríveis e como valemos à pena, afinal, somos muito especiais.

Corremos tão intensamente atrás das nossas escolhas, que sobra pouco tempo para elaborar melhor como vamos nos relacionar com quem nos cerca. Talvez seja por este motivo, que passamos a viver em modo automático, padronizando nosso comportamento, a fim de mostrar ao mundo que somos especiais e pronto. Sem perda de tempo. Sem maiores explicações.

Estar sempre nessa estratosfera nos impede, muitas vezes, de perceber os pequenos, porém interessantes, detalhes em parceiros de trabalho, vizinhos de porta ou até mesmo naqueles com quem dividimos a vida. E isso tem grandes chances de se transformar em armadilhas. À medida que oferecemos o melhor de nós, estaremos sempre esperando uma contrapartida igual ou maior. Uma tarefa nada fácil de realizar.

Achar que somos incríveis e importantes é muito bom, mas pode, em muitos momentos, gerar uma expectativa exagerada sobre tudo. Muitas são as vezes em que não conseguimos realizar aquilo que desejamos, da forma como planejamos. Resultado? Nos frustramos e reclamamos cada vez mais sobre tudo e todos.

O outro lado dessa moeda também é carregado de intensidade. Quantas vezes conhecemos alguém e, em minutos, ganhamos um amigo de infância? Porém, se a criatura não corresponder ao nosso ideal de amizade, teremos alguém novo para odiar.

Nos relacionamos em tempo real e virtual. Cada vez mais deixamos os detalhes de lado e só queremos saber do que realmente importa. Resumimos quem somos e mostramos, sob uma lente de aumento, apenas aquilo que julgamos importante sobre nós. Juntamos uma característica aqui e ali e formamos, com tintas fortes, um grande mosaico de nós mesmos mostrando, apressadamente, o que temos de melhor.

Em uma época onde o tempo é escasso e a pressa dá o tom das relações, acabamos por nos render ao exagero e abrimos mão das sutilezas que podem tornar a vida mais prazerosa.

Flertamos com a superficialidade frequentemente. Criamos o hábito de prestar atenção apenas ao que brilha mais, as pessoas mais bonitas, as melhores festas, ao filme que todos assistem… e por conta disso, muitas vezes, investimos nossa energia em experiências que só escolhemos viver porque outros decidiram que seria bom.

Tudo indica que este processo onde superestimamos muitas coisas, inclusive a nós mesmos, é fato consumado. Mas é possível sobreviver bem a tudo isso se decidirmos parar de olhar para tudo que nos é apresentado e começar a enxergar os detalhes e nuances que tornam a vida, de fato, muito mais interessante.

A inveja mora ao lado

Se eu fosse você não faria isso! Olha, não acho que essa roupa ficou boa em você! No seu lugar, eu não viajaria agora! Acho que esse novo amor não te serve… Todos nós já ouvimos coisas parecidas vida afora. Mas o que leva algumas pessoas a despejarem, sem dó, frases nada motivadoras sobre as outras, ao menor sinal de entusiasmo alheio? Acho que sabemos a resposta…

Ah, a inveja! Aquele sentimento sorrateiro que nos faz cobiçar o que não é nosso e querer o que é do outro. Até aí, tudo bem. Ouso dizer que somos todos invejosos em algum nível. Querer o que não se tem, significa dizer que nos interessamos pelo que é do outro, mas que, infelizmente, está fora de alcance.

A inveja nos impulsiona. Pode parecer estranho, mas somos movidos pela vontade de chegar a lugares conquistados por outros e a posições ocupadas por quem chegou antes de nós. Isso não nos torna maus, mas alimenta uma engrenagem que nos obriga a querer sempre mais daquilo que não temos.

De forma superficial, relacionamos a inveja com maldade. Claro que há uma correlação, mas de forma geral, os invejosos são algozes ocasionais que desempenham funções importantes. São eles os responsáveis por inesperadas puxadas de tapete, depreciação de nossas qualidades óbvias e por criar intrigas em círculos sociais.

Os livros, filmes e novelas adoram retratar os conflitos provocados pela inveja e, portanto, nos levam a crer que não sucumbimos a ela na vida real. Que grande equívoco! A ficção carrega nas tintas ao tratar o tema, mas é o cotidiano que nos apresenta a inveja com sutiliza e em silêncio.

Apesar da má fama, a inveja nos proporciona mudanças de comportamento que não seriam possíveis sem a sua influência. Por exemplo, ser passados para trás nos torna mais cuidadosos e vigilantes; ser alvo de intrigas promove um olhar mais seletivo sobre as pessoas ao nosso redor e, ouvir críticas negativas e gratuitas sobre nossas qualidades e planos, nos obriga a estar mais atentos e cautelosos.

Todas essas características são armas importantes na infinita batalha que travamos diariamente. Ficamos mais preparados para lidar com essas situações porque, à medida que somos expostos às várias formas de inveja, criamos anticorpos cada vez mais resistentes, o que é um efeito colateral muito bem vindo.

Considero a inveja e seus agentes, os grandes antagonistas em nossas vidas, uma vez que, a partir deles, muitos sentimentos e sensações difíceis podem aflorar e se contrapor às virtudes que tanto prezamos. Isso é, sem dúvidas, uma ferramenta essencial na formação do caráter e diz muito sobre quem somos. Ceder aos caprichos da inveja, normalmente, leva a caminhos tortuosos e um tanto cinzentos, já que o brilho perseguido pelos invejosos vem sempre da luz do outro.

É muito difícil perceber de onde vem e quem traz a inveja consigo. Muitos são capazes de viver anos a fio em contato direto com pessoas que, por vezes, são consideradas cuidadosas e amigáveis, mas que estão sempre dispostas a frear sonhos e, de forma discreta, vão minando desejos e esperanças.

O que nos transforma em invejosos perversos é a vontade de chegar a um lugar e depor, sem pudores, o ocupante daquela vaga. Não por merecimento, mas por pura vaidade. É importante saber onde se quer chegar, mas é primordial ter em mente por quais caminhos se pretende seguir para alcançar o que se deseja.

Triste é viver sem emoção

Assistir a uma cena, seja real ou fictícia pode, subitamente, provocar um sorriso, uma lágrima, um alívio ou até mesmo um medo. Todas são reações possíveis diante de um estímulo mas, o que é capaz de nos tocar e baixar a vigilância da consciência, a ponto de permitir que sensações e emoções venham à tona?

Todos nós sentimos o mundo ao nosso redor de um jeito bem particular. Há aqueles que se emocionam em filmes, com novelas ou comerciais de TV. Outros são tocados por literatura, peças de teatro, textos da internet e, ainda existem os casos extremos, daqueles que se comovem por tudo e dos que estão sempre indiferentes a maioria das coisas.

Independente do estilo de cada um, é sempre muito bom sentir. Tenho a impressão de que quanto maior for a nossa disponibilidade para as emoções, mais equilibrados e melhores ficamos. Quando se pensa em sentir, é necessário incluir nesse pacote, não somente as emoções que nos trazem bem estar, mas também aquelas que mostram a realidade dura e sem rodeios, tão presente no universo de cada um de nós.

Vivemos fortemente cercados por sensações de todas as naturezas e intensidades, que nos bombardeiam sem piedade. Talvez este seja o momento da nossa história onde temos a mais ampla oferta de fontes de emoções. Porém, ironicamente, estamos cada vez menos sensíveis e interessados em tudo aquilo que é capaz de nos emocionar.

A velocidade alucinante imposta por nosso estilo de vida, acaba impedindo que fiquemos concentrados em qualquer coisa por muito tempo, e isso vai diluindo a nossa percepção sobre as pequenas coisas que, sob o ponto de vista correto, poderiam nos emocionar intensa e verdadeiramente.

Como não endurecer? Esse é certamente um exercício muito difícil, uma vez que cada um sabe onde o sapato lhe aperta mais e quais as dores e delícias que temos de enfrentar diariamente para sermos quem somos. De todo modo, resistir é uma obrigação e, de forma quase heróica, precisamos preservar aquilo que nos diferencia uns dos outros e nos permite mudar inúmeras vezes, baseado nos estímulos que nos afetam e que chamamos de emoções.

Seja a visão de um casal de idosos caminhando de mãos dadas ou de uma criança que sofreu maus tratos, em ambos os casos, sentimos que nossos corpos se alteram, às vezes de forma sutil, às vezes com violência, mas, independente da reação final, são as nossas emoções as responsáveis por nossa capacidade de reação.

Quando no apaixonamos, ficamos absolutamente à mercê de sensações que, normalmente, não fariam a menor diferença. O coração não saltaria pela boca quando recebemos um telefonema ou uma mensagem de texto, nem tampouco acharíamos graça de piadas do gosto duvidoso. Pequenos exemplos de como nossas emoções nos transformam e nós sequer percebemos.

Extremos emocionais à parte, poucas coisas são tão agradáveis quanto sentir nossas emoções em doses suaves. Imagine sentar em algum lugar que nos faça sentir bem e contemplar tudo aquilo que estiver em nosso campo de visão. Crianças correndo, casais brigando, cachorros latindo, pessoas se exercitando… Garanto que todos visualizaram estas cenas e que, cada uma delas, foi capaz de despertar sensações diferentes motivadas por emoções distintas.

Nossas emoções poderiam ser, facilmente, mais um dos nossos sentidos. É a partir delas que percebemos o mundo e as pessoas que nos cercam e é a partir delas que trocamos experiências de todos os tipos. Tornar-se indiferente e imune às emoções é, sem dúvida, perder uma maneira deliciosa de se relacionar consigo e com o mundo.

O mundo nunca é o mesmo

Ninguém desce duas vezes o mesmo rio. Concordo com Heráclito, o filósofo. Pensando sobre isso, pude, de forma perturbadora, analisar momentos vividos, atitudes tomadas e desfechos para um sem número de situações que nunca ficaram muito claras. Até agora…

Entender essa afirmativa é perceber a transitoriedade das coisas ou, de forma mais simples, compreender que o mundo muda o tempo todo e que nós, em muitos momentos, não percebemos ou nos recusamos a aceitar as mudanças que a vida nos impõe.

Normalmente acreditamos que somos únicos, mesmo sendo formados por incontáveis experiências. Seguimos acreditando que somos como somos e que mudar é para os outros, não para nós. Doce ilusão!

Somos vários em um só na maior parte do nosso tempo, mesmo sem perceber. Mudamos ao entrar em casa, ao chegar para trabalhar, quando vamos à festas ou estamos absolutamente sozinhos. Oferecemos uma face de acordo com o tipo de espelho que encaramos.

Perseguimos situações que não vivenciamos, pessoas que não conhecemos e amores que não vivemos. Isso promove um fluxo de desejos bastante intenso, onde cenários e atores mudam com frequência, e isso, nos impede de prestar muita atenção ao que se vê ou se sente e, à medida que nos deparamos com  o crescente número de possibilidades, maior é a nossa dificuldade em descobrir qual porta devemos abrir.

Mas, onde nasce o nosso fascínio pelo novo e diferente? E quando, de fato, percebemos que precisamos e podemos mudar? Arrisco dizer que as mudanças só acontecem a partir da observação cuidadosa sobre o que nos cerca. Um bom observador é capaz de traçar caminhos a partir de experiências adquiridas ou apreendidas.

Quem nunca sentiu a sensação de estar parado no tempo enquanto o mundo e as pessoas continuam caminhando, menos você? Penso sobre isso com alguma regularidade e me pego fazendo planos para mudanças imediatas, o que nem sempre dá certo. Perceber que os dias são sempre iguais, além de um bom sinal de alerta, ajuda a planejar sua mudança particular com mais cuidado.

Mudar não se baseia apenas na vontade. Percebemos o que nos faz sonhar com mudanças, mas o que de fato nos instiga a enfrentar a novidade são nossas experiências e os exemplos que miramos, como bons empregos, salários mais altos, temporadas em outro país, ter filhos, conseguir meditar ou simplesmente ganhar o pão de cada dia… a vontade é apenas o primeiro passo.

É preciso ter em mente que neste exato momento, ocupamos um lugar no mundo que é fruto de mudanças feitas lá atrás, conscientes ou não. Para muitos de nós, o trajeto feito até este ponto foi praticamente automático e sem maiores planejamentos. Para outros, cada passo da estrada foi criteriosamente pensado e executado.

Independente da forma como pensamos, as mudanças chegam e transformam o que conhecemos como realidade, inclusive quando nossos planos não saem como esperado. Todo mundo conhece alguém ou já passou por situações semelhantes. Amigos que perderam um ente querido, que enfrentaram os desafios de uma paternidade precoce, que foram demitidos de seus empregos de forma inesperada e começaram uma nova atividade profissional. Ainda há aqueles que usaram as próprias histórias, por vezes esquecidas, para trilhar novos rumos.

Sempre seremos capazes de pavimentar novos caminhos que ajudarão a construir quem seremos no futuro. O tamanho da diferença entre quem se é e onde se quer chegar dependerá do apetite que cada um tem por mudanças.

Uma vontade. Um plano. Disponibilidade para o novo. Estes são passos muito importantes quando se pretende mudar algo, mas é preciso aceitar que são apenas partes da engrenagem de um mundo que nunca é o mesmo e isso nos afeta cotidianamente. Como disse Heráclito, nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros… Quanto mais disponíveis estivermos para as mudanças, mais experiências teremos e maior será a nossa troca com o transitório mundo em que vivemos.

Os filhos do querer

Querer… Talvez este seja, não importa o idioma, o verbo mais utilizado pela humanidade. Querer engloba tantas outras ações como desejar, amar, consumir, explorar, ganhar, enriquecer, viver… Uma palavra simples que nos leva à realização de todos os nossos desejos, ou pelo menos a tentativa de realizá-los.

Aprendemos desde muito cedo a saber o que queremos e o que não queremos. Quem nunca dividiu as pétalas de uma flor desejando o “bem me quer” no final? Querer bem é sempre o que se deseja, não é?

Nossos desejos estão muito relacionados às conquistas. Estamos sempre na busca pelo que consideramos maior e melhor. Para mim, o querer dá origem ao que nos torna genuinamente humanos: nossas emoções.

Sempre queremos coisas em quantidade e formas variadas e como somos muitos, estamos sempre prontos a disputar por tudo, com todos. Praticamente todos os seres desse planeta disputam por alguma coisa. A competição é uma mãe capaz de gerar filhos muito peculiares. A vitória, a derrota, a frustração e a perseverança são bons exemplos dessa prole.

Nessa disputa, o desejo da maioria seria sempre o sucesso e a glória mas, como bem sabemos, não é possível vencer sempre que se deseja, logo, a vitória, a filha mais bela, não está acessível a todos.

É possível pensar em tantas gerações espontâneas a partir desses primeiros rebentos. Orgulho e arrogância, persistência, vaidade, felicidade… certamente seriam descendentes da vitória e, em contrapartida, da derrota surgiriam a decepção, inveja e rancor. Frustração e perseverança seriam os fiéis da balança, permitindo o direito de escolha entre a estagnação e a capacidade de seguir em frente, apesar de tudo.

Felicidade, amor e ódio também surgem da nossa capacidade de querer. Quantas vezes ouvimos a célebre frase de pára-choque “não tenho tudo que amo, mas amo tudo o que tenho”? E ter tudo o que se ama é sinônimo de felicidade. Mas, há limites para o querer? Confirmar o amor pelo que se tem não é, nem de longe, afirmar que não se quer mais e mais. Dessa forma, essa corrida maluca sempre terá um novo começo.

É quase poético pensar nas emoções como uma família grande e muitas vezes desajustada, com muitos descendentes nascidos de cruzamentos aleatórios, forjando nossa humanidade. Perceber o mundo além dos nossos instintos primitivos nos confere um status de exclusividade.

Há quem diga que somos únicos na natureza… resquícios do nosso antropocentrismo, certamente. Mas, seguindo por essa estrada, nossa exclusividade está relacionada aos nossos desejos, necessidades e vontades que se relacionam gerando descendentes férteis que se recombinam de diversas formas e em intensidades absolutamente não programadas.

Se olharmos bem de perto, o querer humano também gerou gêmeos antagônicos que podem nos equilibrar ou desestabilizar completamente. Não concorda? Vamos lá… Amor & ódio. Vitória & derrota. Felicidade & tristeza. Arrogância & humildade. Medo & coragem…

Reagimos a tudo a partir de nossas emoções. Quando conquistamos algo muito desejado, quando perdemos uma coisa importante ou quando estamos inertes de frente da TV numa tarde chuvosa de domingo… lá estarão nossas emoções, interagindo entre si, determinando aquilo que chamamos de estado de espírito.

Repararam que não estamos falando de coisas concretas e tangíveis? Jamais tratamos nossas emoções de forma pragmática. Embora a neurociência explique que, todas as variações dos estímulos cerebrais são provocadas por hormônios, neurotransmissores e uma infinidade de substâncias químicas sintetizadas pelo nosso corpo, continuamos, de forma rebelde, a tratar nossas emoções não como manifestações científicas, possíveis de mensurar, mas como algo que deva ser sentido, sem fazer muito sentido.

A verdade é que aquele querer inicial se desdobrou em diversas emoções, mas não se perdeu, apenas mudou. O querer sempre será nosso ponto de partida. Dele, podemos seguir por muitos caminhos, por vezes retos e tranquilos, por vezes sinuosos e inconstantes, mas, mesmo sem um plano de voo prévio, imaginamos que a jornada será repleta de emoções de todas as formas, cores e em diferentes doses. Como saber? Não se pode. Apenas uma certeza nesse caminho… O querer é o que nos move.

Novos tempos

Todo fim de ano é igual. Fazemos promessas sem limites, desejamos mais saúde, mais dinheiro, amor e prosperidade. Até aí tudo bem, pois, de maneira geral, depositamos todas as nossas fichas no futuro, acreditando que o inesperado e o desconhecido realizem todos os nossos desejos.

Estamos sempre tentando suprir nossas carências através da busca por aquilo que não alcançamos e por coisas que nem sabemos direito se queremos ou não. O que é absolutamente normal, uma vez que a capacidade de projetar em sonhos os nossos desejos não conhece limites. O conjunto que reúne nossas vontades e incertezas é o combustível que alimenta um dos nossos melhores sentimentos: a esperança!

Esse é, sem dúvidas, o sentimento que nos faz olhar para frente e acreditar que no futuro reside a fonte dos nossos desejos realizados e, independente do tempo, em algum momento transformaremos em realidade os nossos sonhos.

O novo ano traz consigo essa capacidade de reunir milhões e milhões de pessoas a partir da união de suas esperanças e desejos. Que podem ser de origens muito diferentes, mas que, certamente, tem como grande objetivo, a transformação de suas vidas para melhor. Ainda que o mundo, a vida e as circunstâncias nos conduzam por caminhos com muito mais curvas do que retas, a nossa vontade, quase irracional, de realizar nossas promessas, nos impulsiona a seguir, apesar dos pesares.

Mas, se todos estão em sintonia na busca pela concretização dos seus anseios, por que então, as coisas nem sempre saem como se espera? Muitas vezes não medimos muito bem a distância entre o sonho e a realização, o que pode, com freqüência, provocar a sensação de que existem sonhos possíveis e outros nem tanto.

Desejar sem planejar pode aprisionar nossos projetos na categoria de sonhos. O que, de certa forma, nos exime da frustração provocada por possíveis insucessos, uma vez que sonhos são etéreos e não precisam ser obrigatoriamente realizados. Sendo assim, criamos estradas paralelas que se conectam vez ou outra. Uma delas abriga sonhos rasos e sem maiores planejamentos, daqueles que nos permitem desejar por um sapato, uma viagem ou um carro e que, com algum esforço, conseguimos realizar. Na outra via, enxergamos os sonhos mais antigos, grandiosos e, teoricamente, mais difíceis de concretizar.

Qual seria o propósito de seguir por vias paralelas que apresentam limites de velocidade e paisagens tão distintas? Percebo muitas respostas, mas esta talvez seja, mesmo que de forma inconsciente, a estratégia que encontramos para nunca deixar de sonhar e continuar seguindo em frente, uma vez que o cotidiano é, em muitos momentos, o responsável por apagar as cores vibrantes dos nossos sonhos.

E quando isso acontece, ficamos diante de um dilema: endurecer diante da vida, nos tornando menos sensíveis ao mundo que nos cerca ou acessar a estrada dos sonhos exuberantes e assim redescobrir o prazer de se transportar para dimensões que nos permitem ser o que quisermos ser.

Sonhar é bom. Sonhar é indispensável e nos garante uma agradável lucidez. Mas sonhos carecem de realização. Pôr em prática aquilo que projetamos intimamente nos deixa plenos e ávidos por novas conquistas. E se a travessia que fazemos ao longo dos 365 dias nos afasta das nossas promessas particulares, é na transição entres os anos velho e novo que recuperamos, de forma arrebatadora, a nossa capacidade de sonhar, de avaliar o que passou e fazer novos planos.

A chegada de um novo tempo é, também, o momento de renovação daquele sentimento que nos pega pela mão e mostra que o novo estará disponível para realizações, quedas, aprendizados e surpresas e que, para isso acontecer, basta apenas uma coisa: ter esperança! Feliz ano novo!!!

Então é Natal!

Então é natal! Acho que esta constatação é sentida de formas muito particulares. Religiosos exaltam a chegada de Jesus Cristo. Crianças anseiam por presentes. O comércio espera por recordes de vendas e os pais preparam banquetes que serão devorados em família. Percebo que este é um roteiro seguido por quase todo mundo, mas certamente, esta data supera, e muito, o senso comum.

Sempre que o ano novo começa, projetamos o próximo natal para um futuro bem distante mas, de forma sorrateira, ele parece chegar muito antes e nos pega de surpresa quando nos deparamos com canções e decorações natalinas espalhadas pela cidade.

Na verdade, o tempo continua seu curso normal e apressado como sempre, porém, diferente de outras datas festivas, o natal é capaz de confrontar a nossa correria diária, nos obrigando a mudar o comportamento habitual, como se dissesse “Parem o que estão fazendo, pois preciso de atenção!” Ordem que atendemos prontamente.

Não concorda? Então vamos lá. Em que outro momento do ano nos programamos tanto para um evento? Quando participamos de tantas confraternizações e encontros com amigos, a ponto de não sobrar mais espaço na agenda? Em que outra situação queremos presentear pessoas queridas? E, acima de tudo, em qual outra época do ano nos forçamos a estar em família? É aí que o natal se mostra muito mais especial. Nos reaproximamos de muitas pessoas que ficaram pelo caminho ao longo de um ano difícil e, como sempre, muito corrido. Lembramos de amigos há muito esquecidos e resolvemos dizer um oi, desejar um dia feliz e, com isso, recebemos as felicitações de volta. Este gesto se repete tantas vezes que talvez crie um dos maiores e mais espontâneos fluxos de bem querer que conheço.

Essa onda de energia positiva se materializa na vontade de ajudar ao próximo de alguma forma, seja com lembranças, seja com abraços ou com visitas aos que não estão conectados a esta rede invisível de amor e carinho. Para muitos, o natal significa tristeza e por motivos distintos. Talvez o fato de se sentirem excluídos da catarse coletiva que este período promove na maioria de nós, seja o ponto que os une. Porém, a grandiosidade desta data é tão impressionante que pode, facilmente, transformar dor em alento, abandono em ternura e rancor em esperança.

Muitos atribuem um espírito ao natal. Prefiro pensar em coletividade. Em múltiplos desejos e em muitos espíritos em comunhão, vibrando na mesma sintonia e isto nos faz pensar em fazer o bem, de forma ampla, para além daqueles que amamos e estão por perto. Isso nos confere uma grandeza que não experimentamos o tempo todo mas que ao senti-la, somos capazes de transbordar aquele sentimento que não tem sido visto com muita frequência nas relações humanas em tempos tão difíceis… o amor.

Todas as sensações que sentimos no período de natal são maravilhosas, mas também trazem consigo a dúvida e a reflexão. Por que não agimos assim o ano inteiro? Que essa pergunta seja respondida da melhor forma por cada um de nós mas, a simples possibilidade de nos confrontarmos com a forma como lidamos com o mundo a nossa volta, já é um passo importante.

É provável que pensemos o quão pouco fazemos cotidianamente para tornar a vida mais simples, o quão pouco fazemos para transformar o mundo em um lugar menos hostil. Mas o natal está aí para nos mostrar, nem que seja uma vez por ano, que somos capazes de promover mudanças positivas, de pensar no bem estar de pessoas desconhecidas, de querer o bem e que vidas podem ser transformadas com pequenas e singelas atitudes. Basta querer. Feliz Natal!