Nossos melhores horizontes

Às vezes, o horizonte a nossa frente não se parece com aquela imagem idealizada de um mar calmo e com águas claras. É, bem verdade, que essa figura idealizada e romântica é quase uma lenda. A vida está mais para um oceano revolto, do que para uma praia em calmaria. Esse turbilhão em que vivemos, quase sempre, nos faz olhar de um lado para o outro em busca de luzes de emergência que indiquem caminhos que conduzam à praias paradisíacas, onde repousam os nossos melhores horizontes.

O momento em que vivemos, não importa em que lugar do mundo estejamos, não tem sido fácil. A cada dia uma nova notícia nos alcança e, independente da nossa vontade, diminui nossos reflexos, provocando uma apatia difícil de vencer. Criando rachaduras na nossa capacidade de reagir, e se indignar, diante de tanta loucura. É neste ponto onde encontramos a primeira armadilha: a banalização daquilo que nos incomoda.

Jovens são perdidos para a violência, chuvas fortes provocam desabamentos, mulheres sofrem abusos, escolas não conseguem mais instruir, não há sensação de segurança, famílias são esfaceladas… Desigualdades por todos os lados, injustiças para onde quer que se olhe e dores compartilhadas, que não sabemos explicar, apenas sentir. Com isso, nos deparamos com a segunda armadilha: achar que não existem luzes de emergência quando a única coisa que enxergamos é a escuridão.

Mas, ao mesmo tempo em que parece não haver saída deste abismo sem fundo, onde as tragédias parecem grandes demais, passamos a enxergar detalhes que antes não eram notados. Pequenas atitudes, gentilezas sutis e uma cordialidade cotidiana que insistem em resistir, diante de uma realidade excludente, raivosa e impessoal. Mas, felizmente, são essas sutilezas que injetam energia em corpos e almas sem esperança. E, assim, chegamos a terceira armadilha: acreditar que não viveremos dias melhores.

É obvio que, diante dessa encruzilhada que não aponta para lugar algum, esperança não é algo fácil de perceber. Mas, basta treinar o olhar para percebermos que aquilo que nos afasta pode, também, ser uma forma de aproximação. A dor, a indiferença ou a falta de empatia, permitem reflexões sobre quem somos e o que é, de fato, importante para nós. Talvez esse seja o grande ponto de retorno. Aquele mar revolto ao qual nos acostumamos, nos endurece e nos impede de enxergar a boa energia das coisas simples.

Portanto, aquela ideia do horizonte calmo e solar, pode até não ser uma verdade absoluta, mas traz consigo uma importância que vai muito além de um ideal romântico. Imaginar que um dia seremos capazes de chegar até as belas paisagens que julgamos perfeitas, garante, não apenas um fôlego extra para seguir em frente e de cabeça erguida, mas também, a capacidade de não sucumbir às armadilhas que nos impedem de acreditar que dias melhores virão.

4 comentários em “Nossos melhores horizontes”

  1. Tocou demais…. belíssimo texto meu querido! Mais uma vez, obrigada por nos abrilhantar com textos maravilhosos todos os domingos. Bjs no coração.

  2. Penso também nas vezes em que, sim, temos um mar tranquilo à nossa frente. Mas não o enxergamos. Criamos problemas onde não existe e trazemos uma nuvem carregada sobre aquele paraíso. Algumas vezes o mar revolto não está do lado de fora. Infelizmente, muitas vezes, pra percebermos isso, o mar de fora precisa ficar enlouquecido. Aí sim notamos a diferença. É bom quando daí vem um aprendizado. Mas nem sempre…

  3. Talvez a única forma de não sucumbir a essas armadilhas e nos mantermos imunes e esperançosos por dias melhores, seja encontrar a calmaria interior. É bem papinho dessa galera meditativa… Um salve pra minha galera! E é mesmo. Encontrar a paz e a felicidade interior dá uma firmeza muito grande. Manter isso apesar dos pesares é que se faz desafio diário. Mas vale a pena tentar.

    Vc tocou num ponto que considero importantíssimo aqui. Sua primeira armadilha é a banalização do que incomoda. Eu vi isso na saúde numa época que, se comparada a dias atuais, eram tempos de luxo. Vejo já a tempos na segurança e a impressão primeira é uma bola de neve rolando ladeira abaixo… Nem preciso dizer que em tantos outros setores a situação não é assim tão diferente. Mas a gente tem um raio duma mania de continuar. Romanceando a coisa toda, isso é lindo, até certo ponto. Olha lá como são persistentes, inabaláveis, tudo em nome de um bem maior. Ainda que nem se tenha muita noção de que bem é esse afinal. No entanto, onde quero chegar segue o mesmo raciocínio do Emicida no programa Papo de Segunda, era pra esse país vir abaixo e não é de hoje. E não estou falando de violência, óbvio, sou da galera meditativa. Mas, cadê o povo boicotando o comércio, o governo…? Cadê, que são poucos os que tomam coragem, os áudios “educativos” aos senhores Armandos desse país. E não são poucos… Cadê a participação popular que ainda nem aprendemos como usar direito e já está sofrendo corte em cima de corte?

    Eu sei que existe uma maneira de linkar isso tudo. Fazer tudo ter um sentindo coerente. Manter a paz interior, ser empática, espalhar amor e luz, fazer micro diferenças diariamente, etc, etc, etc… Mas na vida real, é sempre mais profundo e sempre um exercício interessante.

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