Amores baratos

Nos últimos tempos, estar apaixonado ou envolvido por alguém parece ser o objeto de desejo de nove entre dez aspirantes ao amor. Essa ânsia por amar a qualquer preço vem assumindo proporções incontroláveis e acaba criando uma busca frenética por um bem querer. Isso, além de baixar os níveis de exigência, nos conduz a prateleiras desarrumadas onde é possível encontrar produtos nada exclusivos e com prazo de validade duvidoso, como: paixões instantâneas, afetos eventuais e amores baratos.

Esse cenário de terra quase arrasada onde é preferível garantir qualquer coisa a ficar de mãos abanando, tem lá suas consequências. Até onde estamos dispostos a ir para ter alguém? Qual é o preço que estamos prontos a pagar para dividir a vida com um par? Até quando será necessário estar com alguém para ser feliz? Perguntas necessárias, porém, difíceis de responder em tempos onde a cobrança por uma felicidade pasteurizada e padronizada, pesa sobre os nossos ombros, ditando regras e costumes.

Os amores, que antes eram sólidos, tornaram-se líquidos difíceis de reter por muito tempo. O que causa uma série de dissabores àqueles que apostaram suas fichas no amor idealizado, romântico e inalcançável. E, à medida que o tempo passa e a pressa pela conquista aumenta, o amor tende a mudar uma vez mais e transformar-se em vapor, tornando a vida das pessoas ainda mais complicada. Isso faz com que aumentemos a velocidade na busca por algo que torna-se cada vez mais difícil de encontrar e, principalmente, de reconhecer.

Em meio a essa maratona atrapalhada, tropeçamos em pedras de todos os tipos e tamanhos. A maioria não passa de pedaços de rocha sem muito brilho, mas que ajudam a treinar o nosso olhar para reconhecer o momento em que, enfim, as pedras preciosas começarem a surgir. Só que esse é um trabalho de paciência e tentar acelerar o processo pode nos forçar a ver preciosidade e brilho em cascalhos que, além de pesados, não valem grande coisa…

É claro que conhecer pessoas é algo maravilhoso em todas as etapas da vida, desde que seja no nosso tempo e sem ultrapassar os nossos limites. Porém, como escolhas e perdas caminham juntas, não há como ganhar aqui sem perder logo ali. Essa é uma percepção que  demora a ser construída e, acima de tudo, compreendida. Ao longo desse aprendizado, nos acostumamos a ouvir juras de amor vazias, promessas de eternidade que duram instantes e  frases de apaixonadas que dizem exatamente aquilo que o outro quer ouvir. Amar é, certamente, muito mais que isso.

Estar só, depois de algum tempo, acaba atraindo mais olhares do que gostaríamos, como se estivéssemos marcados pela incapacidade de amar. Nada disso. Procurar as pedras certas, tropeçando nas erradas também tem o seu valor e oferecem uma grande lição. Um dia, todos acabam descobrindo que o amor idealizado só existe em comerciais de margarina. Na vida real há o amor imperfeito, cheio de contradições e dificuldades, mas que, apesar disso, é capaz de imprimir sorrisos simples, sinceros e irresistíveis em lábios apaixonados.

Os amores baratos estão por toda parte, oferecendo sonhos de felicidade plena que, quase sempre, transformam-se em desamores parcelados a perder de vista. A receita para não cair nessa cilada é simples. Se for começar a amar, é melhor não prometer além do que se pode cumprir. Se for continuar amando, nunca deixe de resgatar o brilho precioso de suas pedras. No mais, é só seguir em frente e deixar o amor mostrar o seu verdadeiro valor.

 

4 pensamentos em “Amores baratos”

  1. Às vezes me assusto quando esbarro com textos os quais me identifico tanto. Esse em especial foi mais além por conta do quesito profundidade. Me levou a rever pessoas, situações e lugares. Até pude ouvir, mais de uma vez, frases refletoras de paradigmas arcaicos [ranço]. E já que fiquei sem saber estruturar meu pensamento pra comentar o texto anterior, acho que ambos conversam muito bem. Se no outro o centro das atenções é o poder de escolha baseado nas nossas “Vozes de alerta”, que nada mais são que bom senso, ou intuição, ou inspiração… Neste aqui não é diferente. Só existe um plano de fundo pra ilustrar o quanto pode-se pagar caro por escolher o que ressoa em nosso coração em detrimento das convenções, costumes, obrigações sociais. Na verdade, paga-se caro de qualquer forma. As pessoas nunca estarão satisfeitas ao atingirmos o patamar anteriormente estabelecido: quem tá solteiro, TEM QUE arranjar alguém; quem namora TEM QUE casar; quem já casou, TEM QUE procriar; quem já tem 1 filho TEM QUE ter o segundo, etc, etc, etc. Por sinal, que amor perfeito é esse que precisa vir de qualquer jeito? Não importa se existir infelicidade, desrespeito, infidelidade, sentimentos ilegítimos, importa mais estar casada e com um bom partido e com filhos lindos [ranço]. 2018 e ainda esbarramos com essa mentalidade. E a mulher ainda é colocada num foco vitimista como se ela necessitasse do homem pra ser feliz, pra ser bem sucedida, pra ser respeitada.
    E esse termo “ter alguém”? Quem inventou essa ideia que remete a uma falsa posse e falsa dependência? Mesmo as versões mais “fofas” de amor geralmente já começam com falhas que perpassam por esses campos e depois é só ladeira abaixo. Ou eu estou ficando muito chata ou chegando perto da melhor versão de mim (prefiro acreditar nessa opção) visto que não tenho a menor paciência nem pra esse garimpo aí, nem pra interagir com personificações padronizadas de superficialidades. Socorro! kkkkkkkkkkkk
    Agora, não sei em que universo isso se compara a incapacidade de amar (até onde sei o nome disso é psicopatia). Pra mim é exatamente o contrário. Dentro desse aparente esquife de gelo, tem muito amor e muito respeito a si próprio. Mas também tem muito amor guardado pra quem for merecedor e pro momento em que as afinidades ultrapassarem os limites físicos e os defeitos forem contornáveis e tudo aconteça de forma natural e fluida, sincera e respeitosamente para ambas as partes. E, claro, sem se importar com o fantasma das regras sociais.

  2. Poxa, esse texto tinha que ser em inglês, Tio prof. Tenho um amigo aqui que tem tudo: família, amigos, um corpo que o serve pra escalar lugares super difíceis, toca violão, conseguiu se realizar profissionalmente e comprar uma casa linda antes dos 30, carro, saúde, dinheiro, viagens… aquilo que muita gente acha que qdo tiver, finalmente vai ser feliz. Só que não, esse amigo está passando por uma depressão, tomando remédios, nossa, terrível. Tudo isso pq não consegue arrumar namorada. Ele fica num desespero, que em algumas situações, passa por cima dos próprios amigos como um rolo compressor, qdo acha que uma situação específica com alguma menina é promissora. Tão triste de ver. Ele só tem 30 anos e está falando que “já deu, não estou suportando isso aqui (a vida)” por causa disso. Tá lá no Facebook lindo e atlético, checking in nos points todos, foto dele escalando. Na vida real, está pedindo esmola. Qq coisa serve. Dá uma pena saber que a estratégia está errada e não conseguir fazê-lo enxergar. Enfim, tudo isso pra dizer que vou usar seu texto como referência pros próximos conselhos, se ele pedir. 🙂

    1. Luiza, a situação do seu amigo é muito mais comum do que podemos imaginar. É impressionante como a forma de expressar uma imagem pode ser tão diferente da imagem real. Fico muito feliz se vc puder ajudá-lo com um texto meu. Já estou pensando na reformulação do site e com a divulgação dos textos em inglês também. Desejo que vc consiga ajudar o seu amigo! Um grande beijo.

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