Futuros possíveis

Muitos são os pontos de encontro que nos unem nesse mundo. Mas nada é tão impressionantemente comum, quanto a nossa capacidade de projetar o aqui e agora, em direção a futuros possíveis, onde, independente da situação que vivemos no presente, temos a certeza que, o que virá, trará alívio para todos os males. Dessa forma, conseguimos ganhar fôlego para suportar tristezas, digerir decepções e reorganizar ideias. Especialmente naqueles momentos em que nada disso parece ter solução.

Saber como será o amanhã é algo que não está ao nosso alcance. Talvez este seja o motivo que nos leve a criação de realidades fantásticas, onde a felicidade é um direito total e irrestrito a todos aqueles que a desejarem. A esperança nos faz acreditar que o amanhã será sempre melhor que o hoje, que não há dor que dure para sempre e que há solução para todos os problemas. Essa capacidade tão própria da nossa natureza, possivelmente é um item que vem de fábrica mas que só o tempo nos ajuda a entender como funciona.

Alguns trazem essa esperança estampada no peito como um grande estandarte, enquanto outros escondem, timidamente, essa habilidade de acreditar na existência de dias melhores. O que não é uma regra, uma vez que todo mundo, em algum momento, já vivenciou tanto explosões de otimismo, quanto o abandono provocado pela desesperança. Experimentar esses extremos é essencial e permite a compreensão sobre quase tudo aquilo que nos cerca e ajuda a demonstrar, inclusive, que a esperança no futuro só é possível a partir do instante em que se entende que, mudanças, nascem a partir de incômodos.

Se puxarmos pela memória, certamente encontraremos momentos onde a única coisa que nos manteve de pé, foi a crença em uma realidade alternativa que nos receberia sem restrições, independente de quem somos ou do que fizemos. Quem nunca se viu soterrado por problemas insolúveis à primeira vista, mas que foram mudando à medida em que acreditamos num futuro próximo, onde tudo aquilo não passaria de lembranças incapazes de nos fazer mal? Sei que não é nada fácil pensar assim, quando estamos no olho do furacão, mas não custa tentar…

Usar a imaginação como arma de sobrevivência em momentos hostis, pode nos ajudar a resolver os vários fracassos que iremos colecionar por aí afora. Corações partidos, por exemplo, são capazes de provocar dores inimagináveis. Mas até isso pode ser amenizado quando acionamos o nosso botão de emergência que, imediatamente, projeta um futuro feliz onde conseguimos, apesar da dor, imaginar como a vida será melhor quando um novo amor chegar. Para toda e qualquer situação ruim, teremos sempre uma maravilhosa chance de nos transportar para onde os problemas são proibidos de entrar. Assim, usando nossa imaginação de forma quase infantil, é possível aliviar o peso de alguns fardos, conseguindo uma carga extra de energia que será capaz de aplacar dores e fortalecer convicções.

É claro que, por vezes, sequer lembraremos de usar essa válvula de escape. Mergulharemos tão intensamente em nossas questões que teremos certeza de que a luz no fim do túnel não passa de uma metáfora vazia. Mas, para nossa sorte, na maioria das vezes, seguiremos em frente, acreditando em um caminho que, sempre que possível, nos levará até onde podemos ser maiores e melhores. Este não é um incentivo a viver na irrealidade e, sim, uma forma de demonstrar que somos, de fato, capazes de vencer dificuldades a partir do instante em que não as levarmos tão a sério.

Problemas são barreiras que se colocam diante de nós para testar nossa capacidade de superá-las. Coisa que fazemos com frequência. Caímos, levantamos e aprendemos muito nesse processo. Mas o que talvez seja a melhor parte disso, apesar das dores e frustrações, é perceber que poderemos contar sempre com a nossa habilidade de criar futuros capazes de salvar o presente.

Amores baratos

Nos últimos tempos, estar apaixonado ou envolvido por alguém parece ser o objeto de desejo de nove entre dez aspirantes ao amor. Essa ânsia por amar a qualquer preço vem assumindo proporções incontroláveis e acaba criando uma busca frenética por um bem querer. Isso, além de baixar os níveis de exigência, nos conduz a prateleiras desarrumadas onde é possível encontrar produtos nada exclusivos e com prazo de validade duvidoso, como: paixões instantâneas, afetos eventuais e amores baratos.

Esse cenário de terra quase arrasada onde é preferível garantir qualquer coisa a ficar de mãos abanando, tem lá suas consequências. Até onde estamos dispostos a ir para ter alguém? Qual é o preço que estamos prontos a pagar para dividir a vida com um par? Até quando será necessário estar com alguém para ser feliz? Perguntas necessárias, porém, difíceis de responder em tempos onde a cobrança por uma felicidade pasteurizada e padronizada, pesa sobre os nossos ombros, ditando regras e costumes.

Os amores, que antes eram sólidos, tornaram-se líquidos difíceis de reter por muito tempo. O que causa uma série de dissabores àqueles que apostaram suas fichas no amor idealizado, romântico e inalcançável. E, à medida que o tempo passa e a pressa pela conquista aumenta, o amor tende a mudar uma vez mais e transformar-se em vapor, tornando a vida das pessoas ainda mais complicada. Isso faz com que aumentemos a velocidade na busca por algo que torna-se cada vez mais difícil de encontrar e, principalmente, de reconhecer.

Em meio a essa maratona atrapalhada, tropeçamos em pedras de todos os tipos e tamanhos. A maioria não passa de pedaços de rocha sem muito brilho, mas que ajudam a treinar o nosso olhar para reconhecer o momento em que, enfim, as pedras preciosas começarem a surgir. Só que esse é um trabalho de paciência e tentar acelerar o processo pode nos forçar a ver preciosidade e brilho em cascalhos que, além de pesados, não valem grande coisa…

É claro que conhecer pessoas é algo maravilhoso em todas as etapas da vida, desde que seja no nosso tempo e sem ultrapassar os nossos limites. Porém, como escolhas e perdas caminham juntas, não há como ganhar aqui sem perder logo ali. Essa é uma percepção que  demora a ser construída e, acima de tudo, compreendida. Ao longo desse aprendizado, nos acostumamos a ouvir juras de amor vazias, promessas de eternidade que duram instantes e  frases de apaixonadas que dizem exatamente aquilo que o outro quer ouvir. Amar é, certamente, muito mais que isso.

Estar só, depois de algum tempo, acaba atraindo mais olhares do que gostaríamos, como se estivéssemos marcados pela incapacidade de amar. Nada disso. Procurar as pedras certas, tropeçando nas erradas também tem o seu valor e oferecem uma grande lição. Um dia, todos acabam descobrindo que o amor idealizado só existe em comerciais de margarina. Na vida real há o amor imperfeito, cheio de contradições e dificuldades, mas que, apesar disso, é capaz de imprimir sorrisos simples, sinceros e irresistíveis em lábios apaixonados.

Os amores baratos estão por toda parte, oferecendo sonhos de felicidade plena que, quase sempre, transformam-se em desamores parcelados a perder de vista. A receita para não cair nessa cilada é simples. Se for começar a amar, é melhor não prometer além do que se pode cumprir. Se for continuar amando, nunca deixe de resgatar o brilho precioso de suas pedras. No mais, é só seguir em frente e deixar o amor mostrar o seu verdadeiro valor.

 

Vozes de alerta

Pensamentos recorrentes costumam nos visitar quando menos esperamos. E, sempre que vão embora, deixam um rastro de sensações que, dependendo do nosso estado de espírito, podem bagunçar nossas certezas, reacender chamas há muito apagada ou valorizar alguns erros que jamais deveriam voltar à tona. Isso acontece com tanta frequência que sequer nos damos conta da existência desses pensamentos. Que são, na realidade, vozes de alerta, inaudíveis aos outros, mas que são capazes de gritar em nossas cabeças, projetando medos, ansiedades ou euforias para fora das caixas onde insistimos em guarda-las.

No início não damos muito crédito aos anseios que começam a tomar forma e causar incômodos, mas, pouco a pouco, os sons aumentam seu volume e torna-se impossível ignorá-los e, principalmente, não prestar atenção aos seus reflexos. No fim, pouco importa como vamos lidar com isso, uma vez que nossas vozes internas só se calam quando, finalmente, aceitamos ouvir tudo aquilo que elas tem a dizer. Tentar ignorar esses sinais, certamente, não é a melhor saída.

Situações onde ouvimos o que não queríamos ou não merecíamos ouvir, apresentam desdobramentos internos que, via de regra, trazem um sem número de questões que vão desde os clássicos “por que eu não respondi à altura?” ou “da próxima vez isso não vai ficar assim…”, até aquelas sensações desconfortáveis que não sabemos direito qual é a sua origem e o que, de fato, querem dizer. Não é nada fácil entender a expressão discreta dos nossos códigos, mas esta é, possivelmente, a melhor arma que temos para fortalecer fraquezas e estabelecer limites que nos ajudam a enxergar até onde vale a pena seguir.

Mas há o outro lado da moeda. Não é sempre que nos permitimos escutar as expressões que vem de dentro. Muitas e muitas vezes, abafamos todo e qualquer ruído que possa, minimamente, alterar a rota que traçamos, mesmo que isso nos leve para uma grande cilada. Querer demais, seja lá o que for, forma uma barreira a todo e qualquer alerta. Criar certezas, mesmo que estejam sobre pilares frágeis, nos impede de enxergar alguns enganos, mesmo que estejam bem diante de nós. Ignorar nossos avisos particulares, talvez seja o principal motivo que nos leve a enfrentar frustrações desnecessárias e relações arrastadas onde as perdas são sempre maiores que os ganhos.

Na prática, só aprendemos a valorizar nossas placas de perigo após um longa sequência de tombos, pés na bunda e decepções que servem, dentre outras coisas, para mostrar que vale a pena parar, olhar para dentro e consultar nossos verdadeiros anseios, antes de qualquer tomada de decisão. Mas é preciso ter a clareza que, pedras serão uma constante na vida de todo mundo e não é isso que nos fará desistir daquilo que queremos. Insucessos, apesar de seu gosto amargo, são absolutamente importantes, uma vez que forçam um retorno ao ponto de partida, de onde é possível traçar novas rotas e reavaliar o que não deu certo.

Toda essa conversa serve para dizer que, apesar de todas as influências que sofremos desde sempre, no fim, seremos nós os únicos responsáveis por cada passo, por cada escolha e por cada perda. De toda forma, nossos erros e acertos são o reflexo de como percebemos o mundo e as lições que ele nos dá. Nossas vozes de alerta dão a medida entre a diversidade do que está fora e a complexidade do que somos por dentro. Por vezes, enxergamos essas dicas mas não damos muito crédito, em outros momentos, supervalorizamos a sua importância. Isso faz parte do jogo.

O mais fascinante nisso tudo, é perceber que, mesmo que de forma inconsciente, temos um mecanismo de autoproteção que nos ajuda nas vitórias, nos avisa sobre os erros e nos dá a mão quando precisamos superar uma queda. Aprender a usar essa ferramenta poderosa leva tempo, às vezes uma vida inteira. Mas não importa o quanto demoramos para compreendê-la. O essencial aqui é perceber que para seguir em frente, realizado com suas escolhas, sejam elas boas ou não, é preciso dar ouvidos ao conselheiro que vive dentro de cada um de nós.

Gentileza ainda gera gentileza

Tentando observar o mundo até onde a minha vista alcança, percebi que, em vários momentos, me faltou foco para enxergar os detalhes, mesmo aqueles que estavam a poucos palmos do meu nariz. É como se todas as situações estivessem disfarçadas por filtros capazes de alterar totalmente a vida real, transformando coisas que julgava conhecer tão bem, em registros com cores e sombras fora do lugar. Criando, assim, um cenário onde a pressa virou hábito e cuidado virou desdém. Será possível acreditar que gentileza ainda gera gentileza?

As pessoas cruzam a nossa frente o tempo todo, ocupadas com seus celulares, organizando suas vidas, preocupadas com seus horários e com as cobranças diárias que parecem não ter fim. Situações corriqueiras que nos impedem, cada vez mais, de contemplar os encantos do simples. Distanciando, propositalmente, o nosso olhar daquilo que realmente importa, daquilo que de fato, faz diferença.

Caminhamos a passos largos em busca de uma atmosfera autocentrada, onde nada mais importa, a não ser aquilo que queremos. Crianças estabelecem desde muito cedo, suas listas de exigências e são atendidas por seus pais. Adolescentes ditam seus códigos de conduta tiranos e são atendidos. Jovens adultos pegam carona nestas facilidades e tentam criar um ambiente onde todas as suas vontades podem ser realizadas. Ou pelo menos tentam. Mas, chega a hora em que a vida toma as rédeas da situação e se encarrega de mostrar a todos quem manda e quem obedece…

É aí que os conflitos internos se expandem, ganham corpo e rompem barreiras. E, sem saber como controlar essas frustrações, passamos a compartilhar toda a sorte de intolerâncias e preconceitos irrelevantes em sua origem, mas que assumem status de indispensáveis de acordo com a ótica mesquinha da qual fazemos uso com frequência. E assim, criamos uma soma de desvios que deságuam nesse caos em que vivemos, onde ganhar sempre é o que interessa e perder está absolutamente fora de questão.

O que causa espanto nesse panorama, é perceber que estamos, sistematicamente, deixando de lado o interesse, o cuidado e o afeto pelo outro. Esse comportamento quase padronizado, é capaz de promover encontros ou causar afastamentos na mesma medida. Estabelecendo, assim, relações difusas onde nos habituamos a cobrar presença e disponibilidade do outro, mas, em contrapartida, nos limitamos a oferecer, apenas, a melhor das nossas ausências. Essa escassez de cuidados abre espaço para o desaparecimento de um dos nossos hábitos mais adoráveis: a gentileza.

Ser gentil vai muito além das óbvias boas maneiras. Ser gentil é estar disponível para si, para os outros e para todas as situações que a vida oferecer. Mas, parece que a nossa necessidade de atenção sem limites, não deixa muito espaço para que outros, também possam ser agradados. Esse erro de avaliação tem, seguramente, nos tomado experiências preciosas.

Então, o que é preciso ser feito para recuperar as formas daquilo que sempre reconhecemos como nosso? Como fazer para eliminar os filtros que alteram a nossa percepção para que acreditemos que ser egocentrado é melhor que ser coletivo? O que fazer para recuperar pequenos hábitos que mostram que ser gentil nos torna mais fortes e não o contrário? As perguntas são muitas, mas, neste caso, não há uma cartilha a seguir. Basta um sorriso, um olho no olho e um pouco de calma para observar os detalhes que só podem ser vistos a partir do olhar disponível da gentileza.